segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A árvore que falava – Perseverança

A árvore que falava
Longe, muito longe… bem no coração da savana, vivia uma árvore maior e mais velha do que qualquer outra.
Abrigava, sob a sua corcha, toda a sabedoria de África.
A seus pés, por entre as altas ervas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Como era a única árvore das redondezas, os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. Também as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, a conheciam. E os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta…
E assim a árvore conhecia todos os segredos dos pássaros, dos leões, das girafas, das zebras e de muitos outros animais. É que ela escutava com todas as suas folhas.
Até os homens vinham sentar-se debaixo da árvore no momento das grandes decisões, discutindo os assuntos sérios à sombra dos seus ramos.
A árvore sabia mais sobre o povo dos homens do que o mais velho dos anciãos e o mais sábio dos sábios. Porque ela sabia calar-se, enquanto eles gostavam de falar.
Mas a árvore não guardava para si o seu saber: àqueles que tinham os ouvidos atentos, ela murmurava, em confidência, a resposta a muitas questões.
Quando os seus filhotes estavam suficientemente grandes para voar, as andorinhas, as cotovias e os estorninhos tinham por hábito levá-los até à árvore. Ao cair da noite, a árvore enchia-se de chilreios. Passado algum tempo, com três bicadas, os pais faziam calar os mais palradores. E cada um escutava o murmúrio que subia da raiz mais profunda até ao raminho mais alto.
No dia seguinte, os jovens sabiam um pouco mais da arte de voar em ziguezague para enganar as aves de rapina que mergulham sobre as presas. E a águia ou o milhafre regressavam às montanhas de mãos a abanar, perguntando-se por que milagre todos os passarinhos daquele canto da savana se tinham tornado, de repente, tão espertos!
E cada girafinha que partia a mascar um punhado de folhas da árvore ficava a saber um pouco melhor como evitar a leoa que caçava. E, misteriosamente, cada leãozinho, depois da sesta ao pé da árvore, desconfiava um pouco mais do riso da hiena que rondava à procura de uma presa fácil.
Mas os homens, esses, partiam tão sisudos e estúpidos como tinham vindo, e a sua tagarelice nada lhes tinha ensinado porque não sabiam escutar.
Eram orgulhosos e arrogantes. Incendiavam a savana com os seus fogos e matavam mais animais do que aqueles que precisavam para se alimentar. Matavam-se até uns aos outros. E chamavam a isso «a guerra». A árvore falava-lhes, como a todos, mas os homens não a escutavam. Por causa deles, a árvore ficou triste. Pela primeira vez, sentiu-se velha e cansada. Se pudesse, ter-se-ia deitado para esquecer. Mas quando se é uma árvore, é preciso ficar de pé a recordar…
Foi então que as suas folhas amareleceram e secaram e, em breve, ficou nua no meio da savana. Os pássaros começaram a desdenhar dos seus ramos e os leões e as girafas também, porque ela deixou de lhes falar.
E todos diziam que ela estava morta.
* * *
Por muito tempo a árvore seca ficou de pé. E parecia que nada viria alguma vez a mudar… O milhafre da montanha estava contente e as hienas riam-se. A leoa perdeu um leãozinho, a girafa, uma girafinha e a andorinha, três passarinhos que mal sabiam voar.
Mas, uma manhã, veio um pequeno homem com um ar decidido. Tinha o olhar de uma criança, e esse olhar não reflectia nem fogo nem sangue. As suas mãos não agarravam nem arco nem zagaia. Contudo, era um homem.
Parou ao pé da árvore seca, estendeu os braços e, com as pontas dos dedos, tocou no tronco, muito devagar, ao de leve, como se acordasse alguém que dorme. A corcha estremeceu. E a voz do pequeno homem subiu ao longo da árvore, terna como um cântico muito antigo. O homem falava à árvore, cheio de simplicidade. Depois, calou-se. E encostando a orelha ao tronco, escutou. O vento nos ramos parecia formar palavras e frases. E quanto mais a árvore falava, mais a expressão do homem se iluminava.
Quando a árvore terminou, o homem partiu. Quando voltou, trazia um machado aos ombros. Uma vez perto da árvore, levantou a cabeça em direcção aos ramos e murmurou algumas palavras em tom de desculpa. Depois, firme nas suas pernas, com o cabo do machado bem preso nas mãos, começou a cortar o tronco.
E a madeira ressoou na savana, até aos limites do deserto e das montanhas.
Cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore.
Em conjunto, acorreram para junto dela, mas apenas encontraram um cepo e algumas aparas espalhadas pelo solo.
É que o pequeno homem, ajudado por alguns da sua aldeia, tinha levado a árvore até casa. E, com medo dos homens, os animais não se atreveram a segui-lo.
Uma vez chegados à aldeia, o homem pôs-se a trabalhar. Tinha uma grande ideia: para que a voz de madeira da velha sábia percorresse de novo a savana, iria fazer um tantã.
Um tantã mais sonoro e maior do que qualquer outro. Suficientemente longo para que todos os homens da tribo pudessem tocar em conjunto.
Como o homem pegava de novo no machado para podar os ramos e deixar, assim, o tronco livre, aqueles que tinham carregado a árvore com ele fizeram -lhe sinal que parasse:
— Pequeno homem, nós ajudámos-te — disseram os homens fortes com as suas vozes grossas. — O nosso trabalho deve ser pago.
— Mas… com que é que vos vou pagar? Eu não tenho nada, bem sabem!
— Deixa-te disso! — insistiram os homens fortes. — Trouxemos a tua árvore, dá-nos a nossa parte.
— Não pode ser — protestou o homem. — É preciso que o tronco fique inteiro para este tantã. Se não, como é que a tribo poderá tocar?
Os homens obstinavam-se a reclamar a sua parte da madeira e o assunto foi levado ao Conselho dos Anciãos.
* *
Era uma assembleia de homens muito velhos e muito tagarelas. Sempre prontos a pronunciar uma sentença ou um julgamento, tanto a propósito do que conheciam como do que ignoravam. Nada lhes agradava mais do que reunirem-se quando lhes pediam um conselho, e também quando não lho pediam! Ora, o Conselho tinha por hábito reunir-se debaixo da grande árvore, e os velhos sentiam-se desamparados… pois a árvore tinha sido cortada! O mais velho dos Anciãos, um pequeno velhinho com a face enrugada como uma ameixa seca, agitou o cachimbo por cima da cabeça e tomou a palavra:
— O Conselho não se pode reunir por falta de um lugar adequado.
E expeliu uma baforada do seu cachimbo.
Os outros membros do Conselho, sentados em círculo, aprovaram com um movimento de cabeça, expeliram, cada um, uma baforada do seu cachimbo e guardaram silêncio.
Os homens fortes, que queriam a sua parte da árvore, e o pequeno homem, que nada queria, não sabiam o que fazer.
Impaciente por começar o trabalho, o homem avançou para dentro do círculo, curvou-se respeitosamente diante do mais velho dos Anciãos:
— Digam-me apenas se posso começar o meu trabalho, já que estais aqui reunidos.
— Ah, não! É verdade que estamos aqui — respondeu o Ancião. — Mas o Conselho não está reunido. Por isso, não pode dar a sua opinião.
Expeliu uma outra baforada e calou-se.
Os homens fortes, impacientes por levar a madeira que lhes cabia, inclinaram-se, por sua vez, diante dos Anciãos e disseram:
— Digam-nos apenas se podemos pegar na nossa parte.
O Ancião nem se deu ao trabalho de responder. Limitou-se a expelir uma baforada do cachimbo e permaneceu em silêncio.
Mas o mais forte, que também era o mais impaciente, deu um passo em frente.
De imediato, o velho homem largou o cachimbo e, com uma voz trémula, acrescentou precipitadamente:
— O Conselho vai reunir… para decidir onde terá lugar o próximo Conselho.
O discurso enfadonho que se seguiu poderia ter durado até ao final dos tempos, se o Conselho não tivesse acabado por decidir… que decidiria mais tarde!
De seguida, os velhos aconselharam o pequeno homem a dar aos homens fortes o que eles pediam. Depois, reclamaram, por sua vez, um pedaço da árvore como recompensa pelo sábio conselho. E o pequeno homem assim o fez porque era costume dar uma prenda aos Anciãos, como agradecimento pelos seus conselhos.
E cada um se apressou a serrar, a rachar e a atar.
E o pedaço de árvore não tardou a transformar-se em achas, toros e feixes para queimar. Os homens acendiam fogueiras à volta da aldeia para manter afastados os animais selvagens. Ignoravam que os animais tinham ainda mais medo deles do que das suas fogueiras.
* * *
Um pouco desiludido, o pequeno homem reparou na diminuição do tronco, mas disse para si mesmo que, apesar de tudo, ainda chegava para fazer um bom tambor para a tribo.
Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. O machado, no entanto, não era muito adequado para o descortiçamento, por isso decidiu ir a casa de um vizinho pedir emprestado um podão, cuja lâmina curvada faria melhor o serviço. Como era hábito, o vizinho estava a fazer a sesta e o pequeno homem acordou-o para lhe fazer o pedido.
— Ah! És tu? — disse o vizinho, bocejando como um hipopótamo. — O que queres de mim?
— Se fazes favor, podias emprestar-me o teu podão? — perguntou muito educadamente o pequeno homem.
— Eh! — respondeu o vizinho, tão amável quanto um crocodilo a quem interromperam a digestão. — Não me deixas dormir com esse barulho todo… E ainda por cima queres que te empreste o meu podão! E se eu precisar dele?
— Mas… é só por um dia! Amanhã já terei acabado!
— O que me dás em troca?
— Sabes bem que não tenho nada de meu.
— Ah não? E essa árvore? É tua, não é?
— Sim, mas… — começou o pequeno homem.
— Pois bem, dá-me um pedaço para alimentar a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu podão.
Assim se fez, já que mais ninguém na aldeia tinha a ferramenta de que o pequeno homem precisava.
Um pouco desiludido, atentou no tronco, agora mais pequeno. No entanto, havia ainda madeira para fazer um tantã para a tribo.
Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. E o descortiçamento depressa terminou.
Mas, quando quis cavar o tronco, apercebeu-se de que não tinha cinzel para o fazer.
De certeza que o vizinho tinha um, mas será que lho emprestaria sem reclamar mais um pedaço da árvore?
Infelizmente, mais ninguém da aldeia tinha cinzel. E era preciso acordar novamente o hipopótamo, amável como um crocodilo.
— Tu, outra vez! — bocejou o vizinho. — O que queres?
— Desculpa — disse o pequeno homem com a sua voz gentil. — Vim devolver-te o podão… e pedir-te, em troca, um cinzel, se fazes o favor.
— Em troca? — zombou o vizinho. — Não há troca nenhuma porque o podão é meu. Dá-me um pedaço de madeira para a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu cinzel.
* *
Assim foi feito. E o pequeno homem, um pouco desiludido, atentou no tronco muito curto. Ainda podia fazer um bonito tantã, não para toda a tribo, mas, mesmo assim, um bonito tantã. Cheio de coragem, meteu mãos à obra e depressa cavou o tronco. Faltava apenas endurecê-lo ao lume, para que fosse mais sólido e para que o seu som chegasse mais longe. Mas o pequeno homem não tinha fogueira e já havia dado tanta madeira aos outros que não possuía o suficiente nem para atear uma fogueira. Claro que a fogueira do vizinho crepitava, um pouco mais longe, mas não ousava acordá-lo pela terceira vez.
Foi então pedir aos homens fortes, que faziam uma grande fogueira, a permissão de passar o seu tantã pelo fogo.
— De acordo, — disseram eles — mas com a condição de pores uma acha na nossa fogueira, como todos fazem.
— Mas… já não tenho madeira, já vos dei tudo! — respondeu.
— Ah sim? E isto, não é madeira? — perguntou o mais forte dos homens fortes, indicando o pequeno tantã.
Com a morte na alma, o pequeno homem teve de se resolver a cortar um pedaço do tantã antes mesmo de lhe ter ouvido a voz.
E quando pensou naquilo que lhe restava do imenso tronco que a árvore lhe tinha dado, esteve quase para se sentar a chorar e abandonar o seu belo projecto.
Mas caiu de novo em si e disse para si mesmo que, apesar de tudo, se não chegasse para um tantã, chegaria para fazer um grande tambor.
Cheio de coragem, meteu mãos à obra e o que restava do tantã foi rapidamente convertido em djembé. (Djembé é o nome que se dá a esta espécie de tambor, em África). Mas o pequeno homem apercebeu-se de que lhe faltava uma pele de cabra para o tambor.
Partiu então à procura do rebanho de cabras. A rapariga que as guardava era ainda quase uma criança, e o pequeno homem pensou que seria mais fácil falar com ela.
— Bom dia — disse à criança.
— Bom dia — respondeu ela. — És tu que dás madeira a toda a gente em troca de uma ferramenta ou de lume?
— Sim, quer dizer… — começou ele.
— O que queres de mim? — interrompeu a criança.
— Apenas uma pele de cabra, uma daquelas que tens por aí. Mas já não tenho madeira para te dar.
— É pena — disse a rapariga. — Justamente, também eu necessito de um pouco de madeira. Para afastar os leões do meu rebanho não há nada melhor do que uma boa fogueira, disseram-me os Anciãos.
— Oh, por favor, dá-me uma pele. Bem vejo que não te fazem falta — suplicou o pequeno homem.
— Pelo contrário, as minhas peles, troco-as por madeira! — retorquiu a criança.
E, como mais ninguém na aldeia tinha peles de cabra, o homem foi obrigado, uma vez mais, a cortar um pedaço do tambor.
* * *
A pele de cabra era dura e seca, frágil como uma corcha. Antes de a colocar no tambor, era preciso macerá-la, fervê-la, esticá-la, batê-la, para a tornar mais suave e tão sólida como o couro.
Só faltava levá-la ao curtidor.
Aquele que curtia todas as peles da tribo morava sozinho fora da aldeia, perto do rio. O seu trabalho requeria muita água. E os outros não teriam querido que ele se instalasse perto, devido ao cheiro insuportável das peles molhadas.
Mas, por mais longe que o curtidor morasse, também ele tinha ouvido falar da árvore abatida. Por sua vez, reclamou uma parte, como prémio do seu trabalho.
— Mas já não há nenhuma árvore! — lamentou-se o pequeno homem. Ficou apenas um tambor!
— De acordo — concluiu o curtidor. — Contentar-me-ei com um bocado do tambor.
E o pequeno homem cortou e deu-lhe a madeira, e a pele foi curtida, seca e ficou pronta a ser colocada no djembé.
Quando quis esticá-la, deu-se conta de que lhe faltava uma corda para o fazer.
Foi então à procura daquele que na aldeia melhor sabia entrançar cordas. É que a corda que estica a pele de um djembé tem de ser sólida.
Tal como os outros, o entrançador de cordas pediu um pouco de madeira. Apesar dos seus protestos e lamentos, o pequeno homem nada conseguiu. E o tambor ficou ainda mais pequeno.
O pequeno homem regressou a casa perturbado, com a corda ao ombro. Ao ver o tambor tão pequeno, perguntou-se se teria valido a pena o trabalho.
Depois, recordou a árvore que se erguia no meio da savana. Lembrou-se da promessa que lhe tinha feito e a coragem voltou-lhe. Depressa a pele de cabra foi colocada no djembé, em arco, e muito esticada por uma rede de nós sólidos e complicados.
* * *
O homem olhou para o seu djembé, finalmente pronto! Claro que era um djembé muito pequenino, bem diferente daquele tantã que ele quereria ter talhado e no qual toda a tribo teria tocado em conjunto. No entanto, o homem não ficou decepcionado, porque era um belo djembé: esculpido, polido, suficientemente largo para as suas pequenas mãos, e suficientemente grande para lhe caber entre os joelhos. Então, o homem quis experimentá-lo. Com as palmas e os dedos pôs-se a tocar. E a voz que saía deste tambor, tão pequenino que mais parecia um tambor de criança, era ampla e vasta e profunda como a floresta.
O homem sentiu-se arrebatado e as suas mãos continuaram a tocar… E a voz imponente do pequeno djembé estendeu-se a toda a aldeia e à savana inteira.
Um por um, todos os da tribo se aproximaram dele. Tinham vindo todos: desde o mais ancião dos Anciãos à pequena guardadora de cabras, do mais forte dos homens fortes ao vizinho crocodilo. Tinham deixado as suas fogueiras, as suas conversas enfadonhas e as suas sestas, para formar um círculo em redor do pequeno tambor. E faziam silêncio.
Do pequeno djembé elevavam-se palavras e frases que diziam toda a savana: o medo da zebra que foge à azagaia do caçador ávido, o sofrimento da erva que curva perante a chama acesa pelo homem, a doçura do vento que murmura nos ramos da árvore… E os homens escutavam. Eles, que só pensavam na caça, na guerra e nas fogueiras, faziam silêncio.
Assim, até aos limites da montanha e do deserto, cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore. E, graças às mãos do pequeno homem, todos partilharam de novo o seu saber, por muito tempo ainda. Porque, ao som do djembé, o cepo da antiga árvore germinou. Do jovem rebento brotou uma nova árvore.
E, sob a sua corcha de árvore, corria a seiva da sabedoria de África.
A seus pés, por entre as ervas altas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. E as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, e os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta.
Até os homens…
Do Spillers
L’arbre qui parle
Toulouse, Milan Poche, 1999

Fonte: Educar com História

O fio mágico – Paciência

O fio mágico
Era uma vez uma viúva que tinha um filho chamado Pedro. O menino era forte e saudável, mas não gostava de ir à escola e passava todo o tempo a sonhar acordado.
— Pedro, com o que estás sonhar a uma hora destas? — perguntava-lhe a professora.
— Estava a pensar no que serei quando crescer — respondia ele.
— Sê paciente. Tens muito tempo para pensar nisso. Depois de crescido, nem tudo é divertimento, sabes? — dizia ela.
Mas Pedro tinha dificuldade de apreciar alguma coisa que estivesse a fazer no momento, e ansiava sempre pelo que vinha a seguir. No Inverno, ansiava pelo retorno do Verão; no Verão, sonhava com passeios de esqui e trenó. Na escola, ansiava pelo fim das aulas, para poder voltar para casa; e, nas noites de domingo, suspirava dizendo: “Ah, se as férias chegassem depressa!” O que mais o entretinha era brincar com a amiga Lise. Era uma companheira tão boa como qualquer rapaz, e a ansiedade de Pedro não a afectava nem ofendia. “Quando crescer, vou casar-me com ela”, dizia Pedro consigo mesmo.
Costumava perder-se em caminhadas pela floresta, sonhando com o futuro. Às vezes, deitava-se ao sol sobre o chão macio, com as mãos postas sob a cabeça, e ficava a olhar o céu através das copas altas das árvores. Uma tarde quente, quando estava quase a cair no sono, ouviu alguém chamando por ele. Abriu os olhos e sentou-se. Viu uma mulher idosa de pé à sua frente. Ela trazia na mão uma bola prateada, da qual pendia um fio de seda dourado.
— Olha o que tenho aqui, Pedro — disse ela, oferecendo-lhe o objecto.
— O que é isso? — perguntou, curioso, tocando o fino fio dourado.
— É o fio da tua vida — retrucou a mulher. — Não toques nele e o tempo passará normalmente. Mas, se desejares que o tempo ande mais depressa, basta dares um leve puxão ao fio, e uma hora passará como se fosse um segundo. Mas devo avisar-te: uma vez que o fio tenha sido puxado, não poderá ser colocado de volta dentro da bola. Ela desaparecerá como uma nuvem de fumo. A bola é tua. Mas se aceitares o meu presente, não contes a ninguém; se não, morrerás no mesmo dia. Agora diz-me, queres ficar com ela?
Pedro tomou-lhe das mãos o presente, satisfeito. Era exactamente o que queria. Examinou-a. Era leve e sólida, feita de uma única peça. Havia apenas um furo de onde saía o fio brilhante. O menino colocou-a no bolso e foi a correr para casa. Quando chegou, depois de se certificar da ausência da mãe, examinou-a outra vez. O fio parecia sair lentamente de dentro da bola, tão devagar que era difícil perceber o movimento a olho nu. Sentiu vontade de lhe dar um rápido puxão, mas não teve coragem. Ainda não.
No dia seguinte, na escola, Pedro imaginava o que fazer com o seu fio mágico. A professora repreendeu-o por não se concentrar nos deveres. “Se ao menos”, pensou ele, “já fossem horas de ir para casa!” Tacteou a bola prateada que se encontrava dentro do bolso. Se desse apenas um pequeno puxão, logo o dia chegaria ao fim. Cuidadosamente, pegou no fio e puxou. De repente, a professora mandou que todos arrumassem as suas coisas e fossem embora, organizadamente. Pedro ficou maravilhado. Correu sem parar até chegar a casa. Como a vida seria fácil agora! Todos os seus problemas haviam terminado. Dali em diante, passou a puxar o fio, só um pouco, todos os dias.
Entretanto, logo se apercebeu que era tolice puxar o fio apenas um pouco todos os dias. Se desse um puxão mais forte, o período escolar estaria concluído de uma vez. Poderia aprender uma profissão e casar-se com Lise. Naquela noite deu, então, um forte puxão ao fio, e acordou na manhã seguinte como aprendiz de um carpinteiro da cidade. Pedro adorou a sua nova vida, subindo aos telhados e andaimes, erguendo e colocando, à força de marteladas, enormes vigas que ainda exalavam o perfume da floresta. Mas, às vezes, quando o dia do pagamento demorava a chegar, dava um pequeno puxão ao fio e logo a semana terminava, já era a noite de sexta-feira e ele tinha dinheiro no bolso.
Lise também se mudara para a cidade e morava com a tia, que lhe ensinava os afazeres do lar. Pedro começou a ficar impaciente a respeito do dia em que se casariam. Era difícil viver, ao mesmo tempo, tão perto e tão longe dela. Perguntou-lhe, então, quando se poderiam casar.
— No próximo ano — disse ela. — Eu já terei aprendido a ser uma boa esposa.
Pedro tocou com os dedos a bola prateada dentro do bolso.
— Ora, o tempo vai passar bem depressa — disse, com muita certeza.
Naquela noite, não conseguiu dormir. Passou o tempo todo agitado, virando-se de um lado para o outro na cama. Tirou a bola mágica que estava debaixo do travesseiro. Hesitou um instante, mas logo a impaciência o dominou, e ele puxou o fio dourado. Pela manhã, descobriu que aquele ano já havia passado e que Lise concordara afinal com o casamento. Pedro sentiu-se realmente feliz.
Mas, antes que o casamento pudesse realizar-se, recebeu uma carta com aspecto de documento oficial. Abriu-a, trémulo, e leu a notícia de que deveria apresentar-se no quartel do exército na semana seguinte, para servir por dois anos. Mostrou-a, desesperado, a Lise.
— Ora — disse ela — não há nenhum problema, basta-nos esperar. Mas o tempo passará depressa, vais ver. Há tanto que preparar para nossa vida a dois!
Pedro sorriu com galhardia, mas sabia que dois anos durariam uma eternidade a passar. Quando já se acostumara à vida no quartel, entretanto, começou a achar que não era tão má assim. Gostava de estar com os outros rapazes, e as tarefas não eram tão árduas como a princípio. Lembrou-se da mulher que o aconselhara a usar o fio mágico com sabedoria e evitou usá-lo por algum tempo. Mas depressa voltou a sentir-se inquieto. A vida no exército entediava-o, com as suas tarefas de rotina e a sua rígida disciplina. Começou a puxar o fio para acelerar o decurso da semana, a fim de que chegasse logo o domingo ou o dia da sua folga. E assim se passaram os dois anos, como se fosse um sonho.
Terminado o serviço militar, Pedro decidiu não mais puxar o fio, excepto por uma necessidade absoluta. Afinal, era a melhor época da sua vida, conforme todos lhe diziam. Não queria que acabasse assim tão depressa. Mas deu um ou dois pequenos puxões ao fio, só para antecipar um pouco o dia do casamento. Tinha muita vontade de contar a Lise o seu segredo; mas sabia que, se contasse, morreria.
No dia do casamento, todos estavam felizes, inclusive Pedro. Mal podia esperar para lhe mostrar a casa que construíra para ela. Durante a festa, lançou um rápido olhar na direcção da mãe. Percebeu, pela primeira vez, que o cabelo dela estava a ficar grisalho. Envelhecera rapidamente. Pedro sentiu uma ponta de culpa por ter puxado o fio com tanta frequência. Dali em diante, seria muito mais parcimonioso no seu uso, e só o puxaria se fosse estritamente necessário.
Alguns meses mais tarde, Lise anunciou que estava à espera de um filho. Pedro ficou entusiasmadíssimo, e mal podia esperar. Quando o bebé nasceu, ele achou que não iria querer mais nada na vida. Mas, sempre que o bebé adoecia ou passava uma noite em claro a chorar, ele puxava um pouco do fio para que o bebé tornasse a ficar saudável e alegre.
Os tempos andavam difíceis. Os negócios iam mal e chegara ao poder um governo que mantinha o povo sob forte opressão e pesados impostos, e não tolerava oposição. Quem quer que fosse tido como agitador era preso sem julgamento, e um simples boato bastava para se condenar um homem. Pedro sempre fora conhecido por dizer o que pensava, e logo foi preso e lançado na cadeia. Por sorte, trazia a bola mágica consigo e deu um forte puxão ao fio. As paredes da prisão dissolveram-se diante dos seus olhos e os inimigos foram arremessados à distância, numa enorme explosão. Era a guerra que se insinuava, mas que logo acabou, como uma tempestade de Verão, deixando o rasto de uma paz exaurida. Pedro viu-se de volta ao lar com a família. Mas era agora um homem de meia-idade.
Durante algum tempo, a vida correu sem percalços, e Pedro sentia-se relativamente satisfeito. Um dia, olhou para a bola mágica e surpreendeu-se ao ver que o fio passara da cor dourada para a prateada. Foi olhar-se ao espelho. O cabelo começava a ficar-lhe grisalho e o seu rosto apresentava rugas onde nem se podia imaginá-‑las. Sentiu um medo súbito e decidiu usar o fio com mais cuidado ainda do que antes. Lise dera-lhe outros filhos e ele parecia feliz como chefe da família que crescia. O seu modo imponente de ser fazia as pessoas pensarem que ele tinha perfil de chefe. Possuía uma certa de autoridade, como se tivesse nas mãos o destino de todos. Mantinha a bola mágica bem escondida, resguardada dos olhos curiosos dos filhos, sabendo que, se alguém a descobrisse, seria fatal.
Cada vez tinha mais filhos, de modo que a casa foi ficando cheia de gente. Precisava de a ampliar, mas não dispunha do dinheiro necessário para a obra. Tinha também preocupações. A mãe estava a ficar idosa e, com a passagem dos dias, ia parecendo mais cansada. Não adiantava puxar o fio da bola mágica, pois isto só lhe aceleraria a chegada da morte. De repente, ela faleceu, e Pedro, parado diante do túmulo, pensou no modo como a vida passara tão rapidamente, mesmo sem fazer uso do fio mágico.
Uma noite, deitado na cama, sem conseguir dormir, pensando nas suas preocupações, achou que a vida seria bem melhor se todos os filhos já estivessem crescidos e com carreiras encaminhadas. Deu um fortíssimo puxão ao fio, e acordou no dia seguinte vendo que os filhos já não estavam em casa, pois tinham arranjado empregos em diferentes pontos do país, e que ele e a mulher estavam sós. O cabelo estava quase todo branco e doíam-lhe as costas e as pernas quando subia uma escada, ou os braços quando levantava uma viga mais pesada. Lise também envelhecera, e estava quase sempre doente. Ele não aguentava vê-la sofrer, de tal forma que lançava mão do fio mágico cada vez mais frequentemente. Mas, sempre que o problema se resolvia, já outro surgia em seu lugar. Pensou que talvez a vida corresse melhor se ele se aposentasse. Assim, não teria de continuar a subir aos edifícios em obras, sujeito a lufadas de vento, e poderia cuidar de Lise sempre que ela adoecesse. O problema era a falta de dinheiro suficiente para sobreviver. Pegou na bola mágica, então, e ficou a olhar. Para seu espanto, viu que o fio já não era prateado, mas cinza, e perdera o brilho. Decidiu ir para a floresta dar um passeio e pensar melhor no significado de tudo aquilo.
Já fazia muito tempo que não ia àquela parte da floresta. Os pequenos arbustos haviam crescido, transformando-se em árvores frondosas, e foi difícil encontrar o caminho que costumava percorrer. Acabou por chegar a um banco no meio de uma clareira. Sentou-se para descansar e caiu num sono leve. Foi despertado por uma voz que o chamava pelo nome: — Pedro! Pedro!
Abriu os olhos e viu a mulher que encontrara havia tantos anos e lhe dera a bola prateada com o fio dourado mágico. Aparentava a mesma idade que tinha no dia em questão, exactamente igual. Ela sorriu-lhe.
— E então, Pedro, a tua vida foi boa? — perguntou.
— Não tenho a certeza — disse ele. — A sua bola mágica é maravilhosa. Nunca na minha vida tive de suportar qualquer sofrimento ou esperar por qualquer coisa. Mas tudo foi tão rápido! Sinto como se não tivesse tido tempo de apreender tudo o que se passou comigo; nem as coisas boas, nem as más. E agora falta tão pouco tempo! Já não ouso puxar o fio, pois isso só anteciparia a minha morte. Acho que o seu presente não me trouxe sorte.
— Mas que falta de gratidão! — disse a mulher — Gostarias que as coisas fossem diferentes?
— Talvez se me tivesse dado uma outra bola, em que eu pudesse puxar o fio para fora e para dentro também. Talvez, então, eu pudesse reviver as coisas más.
A mulher riu-se.
— Estás a pedir muito! Achas que Deus nos permite viver as nossas vidas mais de uma vez? Mas posso conceder-te um último desejo, meu tonto exigente.
— Qual? — perguntou ele.
— Escolhe — disse ela.
Pedro pensou bastante. Ao fim de bastante tempo, disse:
— Gostaria de voltar a viver a minha vida, como se fosse a primeira vez, mas sem a sua bola mágica. Assim, poderei experimentar as coisas más da mesma forma que as boas, sem encurtar a sua duração. Pelo menos, a minha vida não passará tão rapidamente e não se parecerá com um devaneio.
— Seja — disse a mulher. — Devolve-me a bola.
Ela esticou a mão e Pedro entregou-lhe a bola prateada. Em seguida, ele recostou-se e fechou os olhos, exausto. Quando acordou, estava na sua cama. A sua jovem mãe debruçava-se sobre ele, tentando acordá-lo carinhosamente.
— Acorda, Pedro, não vás chegar atrasado à escola. Estavas a dormir como uma pedra!
Ele olhou para ela, surpreendido e aliviado.
— Tive um sonho horrível, mãe. Sonhei que estava velho e doente e que minha vida passara como num piscar de olhos sem que eu sequer tivesse ficado com algo para contar. Nem ao menos algumas lembranças.
A mãe riu-se e fez que não com a cabeça.
— Isso nunca vai acontecer — disse ela. — As lembranças são algo que todos temos, mesmo quando somos velhos. Agora, anda, vai-te vestir. A Lise está a tua espera, não deixes que ela se atrase por tua causa.
A caminho da escola, em companhia da amiga, observou que estavam em pleno Verão e que fazia uma linda manhã, uma daquelas em que era óptimo estar-se vivo. Em poucos minutos, estariam a encontrar os amigos e colegas, e mesmo a perspectiva de enfrentar algumas aulas não parecia tão desagradável assim. Na verdade, ele não cabia em si de contente.
 
William J. Bennett
O Livro das Virtudes
Editora Nova Fronteira, 1995
adaptado
Fonte: Educar com História
O caçador de borboletas
Vladimir recebeu muitas prendas no Natal, entre livros, discos, legos, jogos de computador, mas gostou sobretudo do equipamento para caçar borboletas. O equipamento incluía uma rede, um frasco de vidro, algodão, éter, uma caixa de madeira com o fundo de cortiça, e alfinetes coloridos. O pai explicou-lhe que a caixa servia para guardar as borboletas. Matam-se as borboletas com o éter, espetam-se na cortiça, de asas estacadas, e dessa forma, mesmo mortas, elas duram muito tempo. É assim que fazem os coleccionadores.
Aquilo deixou-o entusiasmado. Ele gostava de insectos mas não sabia que era possível coleccioná-los, como quem colecciona selos, conchas ou postais, talvez até trocar exemplares repetidos com os amigos.
Nessa mesma tarde saiu para caçar borboletas. Foi para o matagal junto ao rio, atrás de casa, um lugar onde se juntavam insectos de todo o tipo. Já tinha apanhado cinco borboletas, que guardara dentro do frasco de vidro, quando ouviu alguém cantar com uma voz de algodão doce – uma voz tão doce e tão macia que ele julgou que sonhava. Espreitou e viu uma linda borboleta, linda como um arco-íris, mas ainda mais colorida e luminosa. Sentiu o que deve sentir em momentos assim todo o caçador: sentiu que o ar lhe faltava, sentiu que as mãos lhe tremiam, sentiu uma espécie de alegria muito grande. Lançou a rede e viu a borboleta soltar-se num voo curto e depois debater-se, já presa, nas malhas de nylon. Passou-a para o frasco e ficou um longo momento a olhar para ela.
— Agora és minha — disse-lhe. — Toda a tua beleza me pertence.
A borboleta agitou as asas muito levemente e ele ouviu a mesma voz que há instantes o encantara:
— Isso não é possível — era a borboleta que falava. — Sabes como surgiram as borboletas? Foi há muito, muito tempo, na Índia. Vivia ali um homem sábio e bom, chamado Buda…
Vladimir esfregou os olhos:
— Meu Deus! Estou a sonhar?
A borboleta riu-se:
— Isso não tem importância. Ouve a minha história. Buda, o tal homem sábio e bom, achou que faltava alegria ao ar. Então colheu uma mão cheia de flores e lançou-as ao vento e disse: “Voem!” E foi assim que surgiram as primeiras borboletas. A beleza das borboletas é para ser vista no ar, entendes? É uma beleza para ser voada.
 — Não! — disse Vladimir abanando a cabeça. — Eu sou um caçador de borboletas. As borboletas nascem, voam e morrem e, se não forem coleccionadores como eu, desaparecem para sempre.
A borboleta riu-se de novo (um riso calmo, como um regato correndo, não era um riso de troça):
— Estás enganado. Há certas coisas que não se podem guardar. Por exemplo, não podes guardar a luz do luar, ou a brisa perfumada de um pomar de macieiras. Não podes guardar as estrelas dentro de uma caixa. No entanto, podes coleccionar estrelas. Escolhe uma quando a noite chegar. Será tua. Mas deixa-a guardada na noite. É ali o lugar dela.
Vladimir começava a achar que ela tinha razão.
— Se eu te libertar agora — perguntou — tu serás minha?
A borboleta fechou e abriu as asas, iluminando o frasco com uma luz de todas as cores.
— Já sou tua — disse — e tu já és meu. Sabes? Eu colecciono caçadores de borboletas.
Vladimir regressou a casa alegre como um pássaro. O pai quis saber se ele tinha feito uma boa caçada. O menino mostrou-lhe com orgulho o frasco vazio:
— Muito boa — disse. — Estás a ver? Deixei fugir a borboleta mais bela do mundo.
José Eduardo Agualusa
Era uma vez
Revista Pais e Filhos, s/d
Fonte: Educar com História
A aluna estrangeira
Chama-se Salima, a nova da turma.
Não é uma menina calada e tímida, como Gabi. Salima faz-se notada em todo o lado.
Fala mais alto do que os outros. Veste roupas mais garridas do que a maioria. E não deixa que lhe preguem partidas.
Por isso, as crianças tentam arreliá-la constantemente. Diverte- as enfurecerem Salima, ouvi-la gritar, vê-la debater-se à volta delas.
Troçam dos seus cabelos encarapinhados, do nariz largo e da pele escura.
Salima é negra.
Fala bem alemão porque veio para a Europa com os pais quando ainda era bebé.
Gabi acha graça a tudo na nova menina.
Gosta dos olhos grandes, da voz gutural, da pele cor de chocolate.
Quando Salima ri, ri-se com o corpo todo. Quando está furiosa, parece um vulcão, onde tudo ferve.
Gabi emprestou logo o seu caderno à nova aluna, para ela copiar as lições. Com ela, Salima nunca é atrevida ou rude. Quando a deixam em paz, ela é igual aos outros.
Mal a menina estrangeira chegou à turma, há um mês, a escaramuça começou imediatamente:
— Uma preta! — disse Bettina bastante alto. Está sentada ao lado de Gabi e é a sua melhor amiga.
— É negra! — disse Georg arregalando os olhos.
A cozinheira negra já cá está…já, já, já…[1] — trauteou Inga baixinho, da penúltima carteira.
Infelizmente, a pior é Bettina. Tem sempre alguma coisa a apontar à nova menina. A culpada disso é a mãe. Até a proibiu de voltar da escola para casa com “essa preta”. A mãe nem conhece a menina estrangeira mas, mesmo assim, não gosta dela.
— Não é de cá — diz. — Vê-se à distância de dez metros que é diferente de nós.
Bettina também acha.
Gabi não percebe. “Isso não é motivo nenhum para não se gostar de alguém”, pensa. “Até é feio excluir-se uma pessoa, só porque ela tem um aspecto diferente do nosso.”
Gabi sabe o que é não pertencer ao grupo, porque também já foi nova na turma e ainda não há muito tempo. A nova, com os dentes da frente grandes e o nariz demasiado comprido. “Peixe Espada”, foi como lhe chamaram na altura. Precisou de um ano inteirinho até conseguir aguentar, sem chorar, a troça dos outros.
Mesmo assim, foi-lhe mais fácil do que o é agora para Salima. Porque Gabi é branca. Gradualmente, foi conseguindo ultrapassar o medo em relação aos outros.
Mas Salima nunca conseguiria esconder a sua pele escura.
Gabi gostaria de dizer aos outros da classe que a nova só é atrevida porque tem de estar sempre a defender-se. Porque não a deixam em paz de uma vez por todas? Só que tem medo de se pôr claramente do lado da menina estrangeira. Bem lhe quer mostrar que gosta dela, mas os outros não podem notar.
Não gostaria de vir a ter a maioria dos colegas contra ela, como antes, quando chegou como nova à turma.
Mesmo assim…
“Tenho de arranjar maneira de mostrar à Salima que estou do lado dela”, pensa Gabi. “E que gosto dela.”
Às vezes, no fim das aulas, depois dos outros já terem saído, Gabi atrasa-se de propósito para ficar mais um pouco com Salima, que demora sempre muito tempo a arrumar as coisas e a metê-las todas na pasta.
De repente, cai-lhe o estojo das mãos, e todos os lápis, os lápis de cor, duas borrachas e um pedaço de chocolate já mordido rolam para debaixo da carteira.
— Vá, eu ajudo-te — oferece-se Gabi.
Deitadas de barriga para baixo, tentam “pescar” o material escolar e o chocolate. Assim, ao tentarem chegar ao mesmo lápis ao mesmo tempo, chocam com os narizes uma na outra debaixo da carteira.
— Ai! Ui! — exclamam em coro, esfregando os narizes amachucados. E desatam a rir.
Salima diz de repente:
— Tu és simpática, sabes, mas os outros… E faz um gesto de desprezo com a mão, que mais parece uma tentativa de nadar, porque Salima ainda está deitada. Gabi levanta-se e sacode o pó das calças.
Salima gatinha para fora da carteira, mas fica sentada no chão.
— Sabes — diz, apontando para a sala vazia — se não lhes fizer frente desde o início, acabam comigo. Aprendi isto quando ainda era pequena e nos mudámos para cá. Algumas pessoas comportam-se de forma muito estúpida só porque sou de pele escura. Acham que tenho de me sujeitar a tudo!
Salima levanta-se e mantém-se direita.
— Mas de mim não conseguem nada. De mim, não!
Por momentos, parece que vai chorar, mas não.
Gabi admira a menina estrangeira por ter a coragem de não se submeter. Ela própria tinha-se sempre escondido na sua casinha de caracol.
Encolhida, amedrontada, magoada nos seus sentimentos.
Salima, no entanto, é um pouco como um ouriço-cacheiro. Mal há sinal de perigo, fica logo eriçada. Ela até é bem-disposta e gosta de rir. “Só temos de afastar os picos um pouco para o lado e de não a provocar,” pensa Gabi. “E também de ser amáveis para com ela. Porque é que a maioria não percebe isso?”
A maior parte dos meninos não se deu sequer ao trabalho de tentar compreender a nova colega. Só pensam em ofendê-la. Ela grita, mas ri logo a seguir. Pode-se pisá-la. Ela responde, mas, quando vai para casa, vai a cantar.
Aguenta muita coisa. É mesmo bom que haja na turma uma aluna como ela. Ao menos, há mais animação.
É sempre Bettina quem desafia a menina negra e quem provoca os outros. Como agora.
Bettina faz pontaria com a borracha às costas de Salima. A borracha faz ricochete e salta de novo para a mesa. A brincadeira repete-se quatro, cinco vezes.
Alguns já se riem.
— Palerma! — grita Salima, que já começava a ficar farta.
— Acalma-te — diz Paul, com uma voz zangada e dura, ele que nem tem nada a ver com o assunto.
— Deixa-a em paz! — mete-se Alexa, que está sentada ao lado de Salima.
Alexa tomou o partido de Salima. Ela pode dar-se ao luxo de dizer abertamente o que pensa.
“Como ela é querida por todos, pode admitir que gosta da nova”, pensa Gabi.
Com Gabi é mais do que “gostar”. Ela sente com Salima. Pelo que teve de passar, ela sabe que a nova menina tem aguentado. Sente pena dela. Lá por Salima, aparentemente, reagir melhor do que Gabi reagiu, não quer dizer que não se sinta também ferida.
“Tenho mesmo de fazer alguma coisa”, pensa Gabi. “Tenho que lhe provar que sou amiga dela. A dois, dói tudo um bocadinho menos. A dois, pode-se partilhar a dor. Mas o que posso fazer sem pôr logo os outros contra mim?”
Gabi decide deitar-se na varanda todas as tardes depois da escola e “torrar” ao sol. Uma hora inteirinha até ficar da cor do chocolate. Assim, Salima deixaria de ser a única com a pele escura. No Verão, a mãe está sempre a dizer a Gabi:
— Pareces uma preta!
Assim, a partir de hoje, Gabi tornar-se-ia uma preta.
— Que estupidez — diz em voz alta, afastando aquela ideia. — Uma pessoa não se torna preta só por se deitar umas horas ao sol. Não se fica com o nariz largo, nem com lábios grossos, nem com carapinha, só por isso. É preciso muito mais. Principalmente, uma mãe ou um pai que sejam negros.
Gabi continua a magicar. Tem os cotovelos fincados na mesa e a cara apoiada nas mãos. Nem repara no que está a passar-se à sua volta. Tem o olhar fixo no padrão verde das costas do casaco de Salima.
De repente, um bico de lápis desliza para a frente, na diagonal. Pertence ao lápis que Bettina segura na mão.
— O que estás outra vez a fazer? — Gabi desvia Bettina com um toque.
— Deixa-me!
Bettina segura no lápis afiado de forma a apontar a mina à nuca de Salima. Estica o braço até quase lhe tocar.
— Será que ela sente? — segreda Bettina.
— Pára com isso!
Mas Bettina há muito que quer saber como é uma carapinha. Se é rija ou mole.
Bettina estica o braço um pouco mais para a frente. Alguns observam a brincadeira. De repente, Salima começa a balançar-se na cadeira. Dá lanço na beira da mesa, inclina-se com força para trás e acerta com a nuca no bico do lápis.
Um grito. Breve e cortante.
Com a mão direita na nuca, Salima dá umas voltas sobre si mesma. Com a esquerda, dá uma bofetada a Bettina.
— Estás maluca!! — grita Bettina — Não te fiz nada!
— Picaste-me!
— Não picou nada! — confirma Brigitte, que nem tinha prestado atenção ao que se passara.
Que pena a professora ainda não estar na sala. Podia ter acalmado a discussão.
— Vais pagar-me pela bofetada! — diz Bettina zangada.
Gabi estende o braço. Quer afagar a menina negra.
Mas Salima levantou-se com um salto e corre para a porta, a mão ainda na cabeça. Sobre a mão escorre um pouco de sangue. Antes de sair, Salima pára repentinamente. Devagar, muito devagarinho, vira-se para a turma, que a olha com curiosidade.
A menina estrangeira chora. Em silêncio. Só o subir e o descer do corpo e o fungar baixinho revelam a intensidade do choro. Os seus grandes olhos parecem ainda maiores sob as lágrimas.
Salima fica por uns momentos parada, sem se mexer.
Depois fecha a porta com estrondo.
Silêncio aflitivo.
Salima chora. Não ri. Não canta. Chora, como qualquer outra criança também teria chorado.
Gabi está como que pregada à carteira. Muda com o susto. As pernas estão pesadas como se tivesse chumbo nos pés. Porque não se levanta? Porque não corre atrás de Salima? Ela própria não percebe. Era precisamente agora que Salima mais precisava dela.
“Vocês são maus!”, quer gritar. Mas não lhe sai nada.
— Vocês são maus! — grita Michael em vez dela. Está sentado na primeira fila. — Ela não vos fez nada. Se fosse comigo, tinhas logo apanhado duas bofetadas, Bettina.
“Agora que Salima não está cá e não pode ouvir, é que ele diz isto”, pensa Gabi.
E ela própria, que tanto queria ter corrido atrás dela, que queria tê-la agarrado, protegido… não conseguiu!!
De repente, todos começam a falar ao mesmo tempo.
— Ela não tem culpa de ser preta — diz Alexa novamente, que foi a primeira a defender a menina estrangeira. — Imaginem-se o único branco numa turma de pretos. Gostavam que vos acontecesse o mesmo?
— Salima pode não ter culpa de ser preta — diz Inga — mas no meu pão com fiambre é que nunca a deixaria trincar.
— Ugh! — diz Helga, arrepiando-se.
— Ugh! — diz Paul, arrepiando-se também.
— A ti é que ninguém te deixava trincá-lo, com tantas borbulhas — grita Martin.
— Saliva é saliva — diz Paul.
— Exactamente! Com a Salima não é a mesma coisa? — Alexa bate com o punho na mesa.
Gabi assusta-se. As vozes ressoam-lhe na cabeça. A pancada com o punho arrancou-a da confusão das palavras.
Há pouco, quando Salima estava a chorar à porta, Gabi tinha tido uma oportunidade. Podia ter mostrado que achava horrível a forma como os outros se comportavam. Especialmente Bettina. Em vez disso, tentou apenas acariciar a nova menina. Medrosamente, do seu lugar, de onde não precisava de se levantar nem de sentir a turma atrás das costas.
Mas novamente a mesma sensação… Não.
O medo de tornar a ser ridicularizada é maior do que a ligação a Salima.
Mesmo assim, Gabi diz, muito baixinho:
— A Salima é querida. Porque é que és tão antipática com ela?
Bettina ouviu.
— Muito querida — diz, venenosa. — Mas cheira mal!
— Que estupidez! — grita Michael, que só ouviu a última palavra. — Já alguma vez estiveste sentada ao lado do Markus? Ele cheira tão mal que até as minhas meias fogem dele!
Markus, hoje, não veio às aulas, por isso a ofensa não o magoa. Se cá estivesse, ninguém lho teria dito.
Mas à menina estrangeira diz-se-lhe tudo na cara.
Bettina cala-se. A cara ainda está um bocadinho vermelha da bofetada. De repente começa outra vez a barafustar:
— Anda vestida como um papagaio. Só lhe faltam as penas no rabo.
Risos abafados.
— Cala a boca de uma vez por todas! — diz Gabi, agora em voz alta.
A frase desapareceu na risota geral. Cada um grita à turma a sua opinião.
— Acabou! Acabou! Já chega! — Gabi grita agora mais alto do que os outros. Grita e tapa os ouvidos ao mesmo tempo. Ninguém repara que a porta da sala se abre.
Quando Salima se dirige em silêncio para o seu lugar, todos se calam de repente. Não olha para ninguém, tem os olhos pregados no chão e um grande penso na nuca.
Gabi levanta-se ainda antes de Salima se poder sentar. É automático, o chumbo dos pés desapareceu. Gabi nem precisa de pensar. Vai direita a Salima e, em frente da turma toda, põe-lhe carinhosamente o braço à volta dos ombros. Não custa nada.
— Lamentamos todos — diz Gabi em voz alta, de forma a que todos ouçam, especialmente Bettina.
Salima não diz nada.
Agora levantam-se também Alexa e Michael. Inga e Martina. Até Paul se chega à frente. O pequeno grupo cresce à volta de Bettina.
— Não fiz de propósito! — diz ela baixinho.
— Dói muito? — pergunta Gabi.
Salima levanta finalmente os olhos e olha para Gabi. Põe o braço à sua volta.
— Agora já não — diz.
[1] Canção infantil austríaca (N.T.)
Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
Munique, DTV Junior, 1990
tradução e adaptação
Fonte:  Educar com História

Voltamos a conversar, e, hoje coloco alguns textos bem diferentes dos quais costumo colocar

Rachid, o menino da televisão
Rachid é um menino de cabelos negros encaracolados e olhos claros. Uns olhos enormes, luminosos e travessos.
Quando chega a casa, vindo da escola, atira com a pasta para um canto e liga a televisão. Lancha diante do pequeno ecrã. Não tira os olhos das imagens, mesmo quando entorna a chávena de chocolate quente. A mãe chama-o repetidas vezes, mas Rachid nem lhe responde.
Não a ouve. É como se nem estivesse ali. As imagens fascinam-no, enfeitiçam-no, puxam-no para dentro da televisão. Já não obedece ao pai nem à irmã mais velha. Estão todos cansados de o chamar à razão. Danièle, a sua professora, podia impedi-lo de ver televisão, mas não mora com ele. Rachid tem receio dela, porque Danièle é bonita.
Está apaixonado por ela. Quando fala da professora, cora e gagueja. Diz: “A Danièle tem olhos azuis e eu gosto de olhos azuis.” Na realidade, a professora tem olhos verdes. Só que, para ele, são azuis e sonha muito com eles. Os pais de Rachid sabem que só ela pode rivalizar com a televisão. Um dia, o menino ficou doente e Danièle veio visitá-lo. Trouxe-lhe um livro, Os Contos de Goha. Mal a viu entrar, Rachid apagou a televisão e olhou-a com os olhos de um apaixonado. Nem sequer abriu o livro.
Ainda bem que Rachid é inteligente. Pode fazer os deveres enquanto assiste a um episódio de uma série americana, ou enquanto joga O Jogo Louco. Mas, às vezes, confunde as perguntas do jogo e as da professora, a voz do animador e os apelos constantes da mãe.
Então, tudo se mistura na sua cabeça e perde o sono.
Um dia, dá-se uma catástrofe! O televisor avaria! Triste e infeliz, Rachid anda às voltas no apartamento. Tenta reparar o aparelho, mas em vão. Pede à mãe para ir a casa dos vizinhos ver televisão, mas os vizinhos estão fora. Põe os auscultadores do seu walkman e fecha os olhos, mas não consegue ver nada. Não quer abrir a pasta nem beber o chocolate quente. Está de mau humor e trata mal a irmã. Quando o pai chega a casa, Rachid parte um prato. É castigado e vai para o quarto sem jantar. Chora e amaldiçoa este tipo de técnica que lhe prega partidas de mau gosto. “Que vai ser de mim sem televisão?”pergunta-se. “Vou tornar-me num sem-abrigo, num vagabundo. Já não tenho imagens para me sustentar! Que raio de aparelho é este que já não funciona? Vou escrever para os jornais, para que as pessoas não comprem mais esta marca…” Nessa noite, tem um pesadelo: imagens de todas as cores invadem o quarto e rasgam-lhe os livros e os cadernos. Saem de um televisor desligado, atravessam as paredes, as janelas, até mesmo o pequeno corpo de Rachid, que se encontra encostado a um canto da cama, cheio de medo e a tremer. Deitam os objectos ao chão, derrubam o candeeiro da mesinha de cabeceira e partem a moldura com a fotografia de Rachid e de Danièle. O menino carrega no comando com todas as forças, mas as imagens não param: nem o barulho que fazem, nem a desordem que provocam. Alertado pelos seus gritos, o pai vem ver o que se passa. O filho está lavado em lágrimas e encharcado em suor. O pai toma-o nos braços e promete-lhe uma viagem a Marrocos, nas férias da Páscoa. Em breve, o televisor é reparado e Rachid retoma os seus hábitos antigos.
— As imagens não passam de imagens — diz-lhe o pai. — Que me dizes a tentarmos descobrir, por detrás dessas imagens, paisagens maravilhosas, montanhas extraordinárias, florestas imensas, árvores mais altas do que o nosso prédio, planícies infinitas, animais selvagens e um céu azul de dia e estrelado à noite…?
— Não, papá. Posso ver tudo isso na televisão, a cores, em grande plano e com música. Na montanha, não há música.
— Há o canto dos pássaros, o sussurro das árvores, os gritos das crianças a brincar, o soprar do vento. Sobretudo há silêncio, pode-se ouvir o silêncio…
— Não preciso de ir tão longe. Tenho tudo isso na televisão. Quando não gosto do que estou a ver, mudo de canal. A montanha está sempre lá, não podes mudá-la de lugar. Estou bem aqui. Não preciso de me mexer. Não preciso de me separar dos meus amigos. Também não tenho vontade de faltar ao concurso de patins. Aqui não tenho frio, nem preciso de comer com as mãos. Não me apetece escutar o silêncio. Não me apetece ir a Marrocos.
— Mas, em Marrocos, estaremos em férias.
— Eu sei que na montanha não há televisão. Disseste-mo. O avô nem sequer tem electricidade.
— Na montanha, não precisamos de televisão. É maravilhoso: temos a realidade em vez das imagens.
— O avô nem sequer fala francês.
— Fala alguma coisa, assim como tu percebes um pouco de árabe. Vais ver que se vão entender lindamente.
— Não, não quero deixar a televisão. Vão passar a Missão Impossível.
— Quando lá estiveres, vais esquecer a televisão.
— Não, papá, nem pensar.
No dia seguinte, o pai traz-lhe um bonito livro sobre as montanhas de Marrocos. Rachid mal olha para o livro.
— Não presta para nada! — diz ao pai.
O pai sente que também ele não presta. Sente-se triste e incapaz de convencer o filho de oito anos a acompanhá-lo à sua aldeia natal. A televisão rouba-lhe o filho. Parti-la não serviria de nada.
A criança está enfeitiçada e os pais sentem-se infelizes. Decidem ir falar com a professora.
— O Rachid passa o tempo todo em frente da televisão. Tentámos tudo para o afastar, mas em vão. A minha mulher e eu tivemos a ideia de o mandar para Marrocos, para casa do avô, nas férias da Páscoa. Pelo menos, lá não há televisão. O avô dele é um contador de histórias nato. Conhece a natureza, as estrelas, os vulcões, as montanhas, os animais… Ajude-nos a convencê-lo a ir a Marrocos. Se o convencer, ele vai…
Antes de partir, o pai oferece a Danièle um livro sobre as montanhas de Marrocos.
Alguns dias mais tarde, enquanto trocava de canal freneticamente, Rachid perguntou ao pai:
— Papá, é verdade que o avô tem um telescópio?
Apanhado de surpresa, o pai respondeu:
— Claro, usa-o para observar as estrelas.
— Papá, é verdade que na escola corânica não é preciso fazer deveres?
— Sim, é verdade. Passas todo o tempo a ler o Corão, o livro sagrado dos Muçulmanos. Só isso.
— Papá, é verdade que em Marrocos o céu está sempre azul?
— Sim, embora os camponeses gostem que chova de vez em quando porque temem as secas. Uma terra sem água pode morrer.
— Papá, é verdade que o céu de Marrocos é o mais estrelado do mundo?
— O céu está quase sempre coberto de estrelas. Até se atropelam para velar sobre os sonhos dos pequenos Marroquinos…
— Papá, posso levar a tua malinha de couro, aquela que nunca me queres emprestar?
— Sim, filho, podes.
— Se me deixasses ver um pouco mais de televisão antes de partir… já que em Marrocos não vou poder ver…sentiria menos a falta dela…
Acordo firmado. Mas Rachid tem pena que o pai se recuse a comprar um videogravador para gravar os programas que não poderá ver. Diz aos colegas da escola que vai fazer uma expedição a África! “Ao norte de África, mais precisamente a Marrocos, o país onde as estrelas quase se atropelam para velar sobre os sonhos das crianças…”
Na Primavera, Marraquexe está um pouco mais ocre do que habitualmente. As montanhas conservam ainda alguma neve nos cumes. Os prados estão verdes, o ar é seco e as pessoas estão bem dispostas. Gostam de brincar, de contar histórias e de organizar festas. De entre todos os habitantes de Marrocos, os cidadãos de Marraquexe são os que têm mais sentido de humor. Vêem a vida pelo lado bom e são hospitaleiros.
Rachid o e o pai chegam ao aeroporto ao fim da manhã. Antes de apanharem a camioneta para irem para a aldeia do avô, vão à cidade comer num restaurante, situado em frente da praça Jamaa El Fna. É lá que se encontram os contadores de histórias, os saltimbancos e os encantadores de serpentes. Comem espetadas e bebem chá de menta.
Rachid reparou num pequeno televisor que transmite imagens de um homem cego a falar de religião. O homem tem um turbante branco, está sentado sobre esteiras numa mesquita e explica versículos do Corão. “Deus criou os homens todos iguais”, diz, erguendo os olhos para o alto, “apenas a fé os distingue; só a sua ligação à virtude e o respeito pela palavra de Deus estabelecem diferenças entre eles…”
Rachid fixa o ecrã, de boca aberta. Nunca viu este programa em lado algum. — No Islão — diz o pai — não há racismo. Todos os homens que acreditam em Deus são iguais.
Rachid replica:
— E os que não acreditam em Deus?
— Estão errados.
— E eu, acredito em Deus?
— Sim, Rachid. Deus é o universo, a bondade, o céu…
— Sim, acredito no céu coberto de estrelas…enfim, tenho de o ver.
— Vê-lo-ás esta noite.
Na camioneta, as pessoas atropelam-se e discutem por causa de um lugar para o qual foram vendidos dois bilhetes. Alguns passageiros intervêm e tudo acaba em gargalhada. Os olhos de Rachid estão esbugalhados. Registam tudo. É como se estivesse noutro mundo. A expedição a África acaba de começar!
Há camponeses que entram com galos e perus. Levam-nos de volta para a quinta, porque o mercado não é bom desde que deixou de chover. Um homem pega num pão redondo, corta-o em quatro partes e oferece uma delas a Rachid, que hesita. O pai estende a mão, pega no pão e agradece ao homem. — Nunca deves recusar um pedaço de pão ou um copo de água que te ofereçam. É uma tradição nossa.
Um passageiro põe um aparelho de rádio no máximo, para ouvir um relato de futebol. Fuma cigarro atrás de cigarro. Ninguém ousa dizer-lhe nada. Um homem diz ao pai de Rachid:
— Não ligues; é destrambelhado.
Quando chegam ao sopé da montanha, já Rachid dorme nos braços do pai. O avô espera-os, com um candeeiro a gás na mão. A noite está escura e sopra um vento ligeiro. Quando abre os olhos, Rachid aninha-se contra o avô, Jeddi. A casa tem um pátio quadrado descoberto. As paredes são feitas de adobe, uma mistura de terra batida, palha e hulha. Em frente à entrada, fica o estábulo onde dormem as vacas. Rachid passeia no pátio, espantado com o que vê. É a primeira vez que vê a casa do avô. Costumava ver Jeddi em Marraquexe, em casa do tio que tem uma loja de frutos secos, mesmo à entrada da medina.
Rachid não tem sono. Levanta a cabeça e conta as estrelas. Fica com vertigens. Resiste ao sono, apesar da fadiga e do esforço da mudança. Quer passar a primeira noite a contemplar o céu. À meia- noite, fecha os olhos e adormece, com a cabeça pousada nos joelhos de Jeddi.
No dia seguinte, o pai vai-se embora e deixa Rachid a brincar com os cães, os gatos, os coelhos e o burro.
— Vou tratar de problemas com o teu tio em Marraquexe. Venho buscar-te dentro de dez dias. Porta-te bem e ouve o teu avô.
— Não te preocupes, papá. Aqui não há televisão. Espero que ele me conte histórias.
À tarde, quando os animais se recolheram, Jeddi pega na mão de Rachid e leva-o para debaixo de uma grande árvore. Na realidade, a árvore é pequena.
— Dizemos que é grande, não pelo tamanho, mas pela idade e pela calma que nos incute — explica Jeddi. — É uma argânia. Dá um fruto semelhante às azeitonas pretas. As cabras comem-no, mas rejeitam os caroços. Estes são apanhados e postos a secar ao sol durante toda uma estação. Quando os esmagamos com a mó, dão um líquido negro, que, uma vez purificado, se transforma em azeite. Um azeite suculento e raro: o azeite de argânia. É melhor que o azeite da oliveira.
— Não gosto de azeite. Em França, usamos manteiga. Faz-se publicidade a um azeite leve, que não faz engordar. Na televisão, aconselham-nos a comer manteiga.
Rachid aprende a fazer pão com a avó. Assiste a toda a operação: chega mesmo a ver os pães a sair do forno, que está situado no meio do pátio. Depois, vai dar um passeio com o avô até à aldeia. Caminham por estradas cheias de pó. A praça da aldeia assemelha-se a uma cerca onde se guardam os animais. Há duas lojas que vendem de tudo: Coca-Cola, pastilha elástica, detergente, óleo de amendoim, pregos, foices, lâminas de barbear, candeeiros a petróleo ou a gás, ovos, farinha, aspirinas, cordas, enxadas, apanhadores, rodas de tractor, bidões de plástico, pão, cadernos de escola e até mesmo um pequeno televisor japonês a pilhas!
Jeddi pára diante da loja, que também vende café, e senta-se numa caixa. Rachid bebe uma Fanta com sofreguidão. As pessoas vêm cumprimentar Jeddi e beijar Rachid, a quem oferecem presentes: bombons, bebidas, dinheiro, um chapéu de palha, uma túnica de lã, favas grelhadas, azeitonas, tâmaras e figos secos.
Todos se conhecem e todos falam da mesma coisa: da falta de chuva. Estão persuadidos de que a chegada de Rachid lhes trará boa sorte e fará vir a chuva há tanto esperada. Diz um homem:
— Este menino veio anunciar-nos a chuva; vê-se pela cara dele; está calado, mas tudo indica que é portador de boas notícias.
No caminho de regresso a casa, Rachid farta-se de fazer perguntas ao avô. Reparou que a água é escassa, que não há água nas torneiras. É preciso ir buscá-la aos poços, filtrá-la e fervê-la antes de a beber.
Pelo caminho, repara que há mais mulheres do que homens a trabalhar nos campos.
— Esta noite, vou falar-te das estrelas — diz-lhe Jeddi.
Rachid adormece depois do almoço e tem um sonho muito bonito: vê a mãe, que está vestida como as mulheres dos campos. Dança e canta à chuva. Os homens misturam-se com as mulheres e dançam também para agradecer ao céu ter-lhes dado chuva e esperança.
Quando acorda, o céu está cheio de nuvens negras e todos esperam pela tempestade. Começam, então, a cair chuvas diluvianas sobre a região.
À noite, os vizinhos vêm ver o menino que lhes trouxe sorte. Colocam uma mão sobre a sua cabeça e aproximam os lábios para a beijar.
Nessa noite, Rachid tem vontade de estar em casa, com os pais e a irmã. Pensa na televisão, mas sente que já não lhe faz muita falta. Não percebe o que se está a passar com ele. Desfilam imagens pela sua cabeça. Imagens de séries e de filmes que costumava ver em França. Essas imagens misturam-se com as da aldeia. Lutam umas com as outras e Rachid faz de árbitro. Torce pelas imagens da aldeia: não são mais belas, mas são mais misteriosas.
No dia seguinte, depois do jantar, Jeddi pega na mão de Rachid e sentam-se num velho tapete, à entrada de casa. Diz ao neto:
— Ergue os olhos para o céu. Contempla-o sem pressa. Habitua o teu olhar à obscuridade. Vê a Lua em quarto crescente. Diz a ti mesmo que todos somos filhos do céu. Alguém disse que as nossas raízes estão nas estrelas. Isso significa que todos somos filhos e filhas do universo.
— Vejo muitas estrelas…
— Só podes vê-las bem, depois de os teus olhos se terem habituado à obscuridade.
— O que é uma estrela?
— É uma imensa bola de luz. A estrela que está mais próxima de nós, e que é também a mais conhecida, é o Sol. Ilumina o mundo e fornece-lhe calor.
— É o senhor do universo…
— É o nosso mestre e amigo. Mas gosta de nós de longe. Se se aproximar demasiado de nós, os seus raios queimam-nos. Impede as nuvens de se formarem e a terra fica sem água. Uma terra sem água é uma infelicidade para todos nós.
— É a seca…
— Na nossa região, a seca é sinónimo de infelicidade. De cada vez que ela surge, os camponeses abandonam as terras e vão mendigar para a cidade. Quem tiver água está salvo. É por isso que ter água é mais importante do que ter terra.
— E a Terra? Para onde vai a Terra?
— A Terra não é uma estrela, mas sim um planeta. Gira sem cessar à volta do Sol.
— O que procura a Terra?
— Faz o que fazem os outros planetas. Sabes, não somos os únicos a girar em torno do Sol. Ao todo, há sete planetas: Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Neptuno, Platão e a Terra. A Terra dá-nos o dia e a noite. A noite traz-nos os sonhos e os sonhos ajudam nos a viver.
— Jeddi, como sabes tudo isso?
— Quando tinha a tua idade, era pastor. Levantava-me antes do sol raiar e levava as vacas a pastar longe da aldeia. Tinha doze vacas à minha guarda. Só tinha por companhia um cão, Messaoud. Ia à procura de erva para os meus animais. Tal como os meus antepassados, contemplava o céu, para saber o que se ia passar na terra: se ia chover, se os ventos iam empurrar as nuvens na direcção certa. Habituei-me a consultar o céu para tudo. O meu pai dizia que cada ser humano tem uma estrela no céu. À noite, isolava-me e perscrutava o céu, em busca da minha estrela. À força de tanto o observar, aprendi bastantes coisas e o meu pai explicava-me outras. Conhecia o nome de muitas estrelas. Dizia-me que, para nós, Árabes, a Ursa Maior é como uma caravana no horizonte. Se a seguirmos, ela conduzir-nos-á à nossa estrela. Então, eu caminhava pelo céu durante horas, montado na Via Láctea, à procura da minha estrela.
— Como é a tua estrela? Como se chama?
— Dei-lhe o nome da minha primeira filha, Nejma, que morreu muito jovem. Sei que ela foi ter com a minha estrela. Instalou-se na sua luz e ficou coberta da sua pureza e da sua beleza.
— Podes mostrar-ma?
— Gostaria muito, mas os meus olhos já não vêem muito bem, e tenho dificuldade em distinguir os astros no céu. Mas tu podes encontrá-la quando fores à procura da tua própria estrela.
— Em Paris, o céu está sempre encoberto. O que hei-de fazer para encontrar a minha estrela? Como a reconhecerei?
— Reconhecê-la-ás sem esforço. Sentirás, com convicção, que se trata dela.
— Tenho de vir viver para a aldeia…
— Não forçosamente. Vens ver-me sempre que estejas em férias. No Verão, por exemplo…
— Este Verão, em França, vão passar um filme que todos os miúdos americanos já viram. Chama-se A nova guerra das estrelas. O herói chama-se Jeddi, como tu!
— É avô, como eu?
— Não, não é casado!
— Contas-me depois? Gostava que me contasses o que vês na televisão. De vez em quando, vamos à aldeia ver filmes egípcios. Sempre é uma mudança.
Rachid adormece nos joelhos do avô.
No dia seguinte, acompanha-o ao mercado. Partem numa mula. Há camponeses de terras vizinhas a venderem os seus produtos. Jeddi não vende nada, só mostra o mercado ao neto. As pessoas cumprimentam-no. Também há contadores de histórias, acrobatas, mágicos. Um homem vende flocos que custam muito dinheiro. É muito alto e está vestido de Super-Homem. Diz que a mãe o alimentou com estes flocos e que, por isso, se tornou um Super-Homem. Está calor e o homem transpira muito. As pessoas riem-se. Algumas compram os flocos e comem-nos mesmo ali. Mas logo mudam de cor e cospem fora o que comeram.
Todas as noites, avô e neto se sentam no mesmo tapete e observam o céu. Rachid está impaciente porque não consegue encontrar a sua estrela.
— Há milhares de estrelas. É impossível vê-las todas, mesmo com o auxílio de aparelhos. Sê paciente e passeia pelo rio celeste. Quando a tua estrela te vir, vem ter contigo e apresenta-se. Pode acontecer hoje, amanhã ou no próximo ano.
Nesse momento, uma cauda luminosa atravessou o céu a toda a velocidade. Rachid exclamou: — É ela! Corre como eu!
— O que viste é uma estrela cadente. Provém de poalha celeste. Está a fugir de alguma coisa, talvez do Sol. Não é a tua estrela.
Todas as noites, Rachid pensa ter visto a sua estrela. Quando o pai o vem buscar para voltarem para França, encontra o filho triste e insatisfeito.
Jeddi abraça o neto com força: — No Verão, o céu está mais limpo e as estrelas vêem-se com mais facilidade. Vais ter mais sorte. Estarei à tua espera.
Na viagem de regresso, Rachid conta ao pai tudo o que aprendeu. Na escola, oferece à professora uma pulseira de prata que a avó lhe deu. Só fala de Jeddi, das estrelas, dos planetas e de Marrocos. Em casa, diante da televisão, está distraído. Não que já não queira ver, mas sabe agora que há outras maravilhas, outras imagens. Basta levantar os olhos para o céu e interrogar as estrelas. Numa noite de Verão, sentado num tapete junto de Jeddi, acaba por encontrar a sua estrela.
As imagens do ecrã têm menos mistério do que uma pequena árvore chamada argânia, ou do que um mercado árabe cheio de camponeses, animais e Super-Homens falsos.
Mas Danièle continua a ter olhos azuis.

Tahar Ben Jelloun/Baudoin
Rachid, l’enfant de la téléParis, Éditions du Seuil, 1995
 Fonte: Educar com História



O pão dos outros – Partilha

O pão dos outros
Remi está a conversar com a avó.
Gosta de a ouvir falar dos seus tempos de menina.
— Na minha aldeia, na Provença, pelo Ano Novo, no primeiro dia de Janeiro, toda a gente oferecia uma prenda a toda a gente. Vê lá se és capaz de adivinhar o que seria.
Remi lança palpites:
— Comprar prendas para a aldeia inteira… É preciso ter muito dinheiro. Quer dizer que as pessoas eram ricas?
A avó riu-se:
— Oh, não! Naquele tempo, tinha-se muito pouco dinheiro e ninguém na aldeia comprava prendas. Nem sequer havia lojas como há hoje.
— Então faziam as prendas?
— Não propriamente!
— Então como é que faziam?
— Era muito simples. Ora ouve…
Antigamente, cada família fazia o seu pão. Não havia água corrente nas casas. Então íamos buscá-la à fonte, no largo da aldeia.
E, no dia um de Janeiro, de manhã muito cedo, a primeira pessoa que saía de casa, colocava um pão fresco no bordo da fonte, enquanto enchia a bilha de água. Quem chegava a seguir pegava no pão e punha outro no mesmo lugar para a pessoa seguinte, e assim por diante…
Desta forma, em todas as casas, se comia um pão fresco oferecido por outra pessoa. Nem sempre se sabia por quem, mas garanto-te que o pão nos parecia muito bom porque era como se fosse um presente de amizade.
As pessoas que estavam zangadas pensavam que talvez estivessem a comer o pão do seu inimigo e isso era uma espécie de reconciliação…
Durante alguns dias, esta história andou a martelar na cabeça de Remi.
Uma manhã, teve uma ideia.
Meteu no bolso uma fatia de pão de lavrador. É o pão que se come na casa de Remi.
E na escola, um pouco antes do recreio, Remi pousou o pão bem à vista, em cima da carteira de Filipe, o seu vizinho.
Filipe está sempre com fome e repete sem cessar a Remi:
— Oh! Que fome, que fome eu tenho! Bem comia agora qualquer coisa!
Quando Filipe viu a fatia de pão, que rica surpresa! Sabia muito bem quem lha tinha dado, mas fingiu que não sabia.
No recreio, todo contente, comeu o pão sem dizer nada a Remi, mas…
No dia seguinte, sabem o que é que Remi encontrou em cima da carteira, mesmo antes do recreio? … Um pedaço de cacete!
Um grande pedaço bem estaladiço! Um verdadeiro regalo!
Filipe ria-se.
E assim continuaram a dar um ao outro presentes de pão.
Na aula, a Carlota e a Sílvia estão sentadas logo atrás de Filipe e de Remi. Rapidamente souberam da história do pão e quiseram também participar nas surpresas.
No dia seguinte, Sílvia levou uma fatia de cacetinho e Carlota uma fatia de pão centeio.
Outras crianças quiseram participar nas prendas de pão.
Apareceu pão grosseiro, pão de noz, pão de sêmea, pão sem côdea, pão caseiro, pão fino, pão russo, negro e um pouco ácido, que Vladimir levou, pedaços de pão árabe, que a mãe de Ahmed cozera no forno, e ainda muitos outros tipos de pão.
Desta forma, quase toda a turma se pôs a trocar pedaços de pão durante o recreio.
A professora apercebeu-se das trocas e perguntou:
— Mas o que é que vocês estão aí a fazer?
Carlota e Remi contaram-lhe toda a história do pão dos outros.
E, logo após o recreio, o que é que estava em cima da secretária da professora? …um pedaço de pão!
Toda a classe tinha os olhos postos na professora. Ela sorriu e comeu o pão.
E, no domingo seguinte, quando Remi viu a avó, era ele que tinha uma história para lhe contar:
— Sabes, avó? Olha, na minha turma…
Michèle Lochak
Le pain des autres
Paris, Ed. Flammarion, 1980
Fonte: Educar com História