quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Violência contra a mulher

Fala-se das conquistas da mulher, como se a mulher de nossos dias tivesse seus direitos reconhecidos e respeitados por toda a parte. No entanto, bem longe a realidade.
A mulher ainda vive, nos dias atuais, num clima de opressão e submissão, sendo violentada das mais variadas formas. Ainda está longe da prática a alegada igualdade de direitos entre homens e mulheres. O fenômeno é mundial, mesmo em países considerados de primeiro mundo, onde o progresso intelectual e econômico é notório, a discriminação é uma realidade. Desigualdade de salários no Japão, pensões inferiores na Inglaterra, violência física na Suécia e exploração nos trabalhos domésticos na Alemanha, especialmente das mulheres estrangeiras.
A violência contra a mulher remonta à Antigüidade, cabendo esclarecer que o termo violência é tomado em sentido amplo, para abranger todas as formas.
A história da humanidade é uma história de lutas pelo poder, pelo domínio.
A mitologia greco-romana nos oferece relatos dessas lutas em todos os níveis. Os homens disputam entre si, os deuses disputam entre si, os deuses disputam com os homens. Os mais fortes subjugam os mais fracos que devem ser servis, humildes e obedientes. As mulheres não ficam fora desse contexto. Muito são os relatos de sedução, de estupro e de violência contra a mulher. Os deuses se disfarçam e descem até os campos com o fim de seduzir as ninfas enganado-as ou estuprando-as.
Conta a mitologia grega criação dos homens por Prometeu e da mulher pelos deuses do Olimpo que, sentindo-se ameaçados de perder seu poder, tiveram a brilhante idéia criarem a mulher para levar os homens à perdição.
Por esta razão foi criada, a partir de uma estátua de bronze uma forma humana, capaz de sensibilizar e encantar o homem e que recebeu de cada deus um dom. Apolo lhe deu a voz macia,  Mercúrio lhe deu a língua, Atena lhe ofertou um belíssimo vestido que permitia perceber suas formas suaves, Vênus lhe deu a beleza infinita, e assim, recebendo dons que a deixavam cada vez mais formosa, foi criada Pandora. De Zeus, Pandora recebeu uma caixa que deveria entregar aos homens. Com a missão de destruir a raça humana, Pandora desceu a terra, encontrando Epimeteu que se apaixonou perdidamente encantado com sua beleza e formosura. Esquecendo a promessa que havia feito ao seu irmão Prometeu que nunca receberia nada que fosse dado por Zeus, Epimeteu recebe de Pandora a caixa na qual foram colocados todos os males da humanidade, como o orgulho, a ambição, a crueldade, a traição, as doenças, as pestes... No fundo da caixa havia um único bem capaz de salvar a humanidade, a esperança. Mas a um gesto de Zeus, após saírem todos os males, Pandora fecha a caixa impedindo que a esperança seja recebida pelos homens. Assim, perdeu a raça humana, o paraíso e a felicidade que poderia conquistar com sua inteligência e seu trabalho. Culpa da mulher.
O relato bíblico da perda do paraíso tem na mulher a grande vilã. Eva descumprindo ordem de Deus toma do fruto proibido, tenta Adão levando-o a comer do fruto. O resultado é de todos conhecido. O pobre homem foi vítima da astuta mulher.
A idéia de grandes pensadores do passado acerca da mulher, nada tem de lisonjeiro. Vejamos: 
Eurípedes considerava a mulher como “Vítima de irremediável inferioridade mental”.  
Pitágoras, filósofo grego que deu grande impulso à matemática dizia: “Existe o princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e o princípio mau que criou o caos, a treva e a mulher”.  
Aristóteles expressava o pensamento comum da época da seguinte forma: “A mulher é mulher em virtude de uma deficiência, que devia viver fechada em sua casa e subordinada ao homem”.  
Shopenhauer, filósofo alemão, diria, muitos séculos depois: “A mulher é um animal de cabelos longos e idéias curtas”.  
Com Jesus, tem início o longo e penoso trabalho de resgatar a dignidade da mulher.  Foi o grande revolucionário judeu que deixou claro que a mulher, da mesma forma que o homem tinha uma alma e que poderia alcançar o reino dos céus.
Jesus, rompendo com os preconceitos da época, dialogava com as mulheres, a exemplo da samaritana, de Joana de Cusa, de Marta e de Maria, irmãs de Lázaro. Jesus não apoiou o apedrejamento da mulher adúltera, e aqui abrimos um parêntese para lembrar que ao lado de uma mulher adúltera existe um homem adúltero.
A prostitua de Magdala conversou com Jesus em público, numa demonstração inequívoca de que os preconceitos deveriam ser superados.
No entanto, sob a forte influência do judaísmo, com Paulo de Tarso, o cristianismo se desenvolve considerando a mulher a perdição do homem, a responsável pela perda do paraíso. Eis porque grandes filósofos ligados à Igreja tinham uma visão nada cristã da mulher, assim expressando-se: 
Tertuliano: “Mulher és a porta do diabo. Persuadiste aquele que o diabo não ousava atacar de frente. É por tua causa que o filho de Deus teve de morrer; deverias andar sempre vestida de luto e de andrajos”.  
São João Crisóstomo: “Em meio a todos os animais selvagens não se encontra nenhum mais nocivo que a mulher”.  
São Tomás de Aquino: “A mulher é um ser “ocasional” e incompleto, uma espécie de homem falhado”.  
Santo Agostinho: “A mulher é um animal que não é seguro nem estável; é odienta para tormento do marido, é cheia de maldade e é o princípio de todas as demandas e disputas, via e caminho de todas as iniqüidades”. 
Nada mais violento que as expressões desrespeitosas desses pensadores, a respaldar ações de igual teor.
Eis os arquétipos predominantes em todas as sociedades da atualidade. A mulher é a causadora de toda desonra e de todo o mal, deve, pois sofrer.
O homem se acha superior à mulher em inteligência, capaz de fazer com melhor qualidade as coisas relacionadas com as atividades intelectuais, que exigem raciocínio lógico, e que a mulher além de inferior intelectualmente deve ser submissa. É a predominância do jogo de poder do qual ainda não se liberou. Detentor de um profundo egoísmo, o homem quer ser servido e vê na mulher uma serviçal para as tarefas consideradas inferiores como cozinhar e lavar roupas, cuidar da casa e dos filhos, além de transformá-la em objeto de seus desejos e prazeres sexuais, desconsiderando os desejos, os prazeres e o bem estar dela.
Esta idéia mesquinha leva-o a pratica de toda sorte de violência contra a mulher, independente de idade, grau de instrução e condição social.
Pesquisas revelam que a violência contra a mulher ocorre em todo o mundo e em todas as camadas sociais, que vai desde a discriminação com a mulher solteira, com a virgindade, a desigualdade salarial para exercício de funções iguais, exploração sexual, até o espancamento e o homicídio.
As formas mais comuns de violência são:

 
Violência física
Lesão corporal – espancamento – art. 129 CP
Tentativa de homicídio – art. 120 CP
Homicídio – art. 121 CP
 
 
Violência sexual
Estupro – art. 213 CP
Assédio sexual – art. 216 A CP
Atentado violento ao pudor –art. 214 CP
Sedução – art. 217 CP
Rapto – art. 219 CP
Importunação ofensiva ao pudor – art. 61 LCP
 
Violência emocional/moral
Agressões verbais
Pressões
Ameaças – art. 147 CP
Induzimento ao suicídio – art. 122 CP
 
Discriminação profissional
Diferença salarial - art. 5º e 7º, XXX, CF.
Desigualdade de oportunidade de crescimento - art. 5º e 7º, XXX, CF.
 
Discriminação racial
Preterição de emprego em razão de cor ou raça - art. 5º e 7º, XXX, CF.
Deixar de vender em razão de cor ou raça
Racismo – Leis 7.716/89 e 8.081/90
 
 
Outras discriminações e violências
Religião – art. 5º CF
Ideologia política – art. 5º CF
Problemas de saúde física ou mental - art. 5º e 7º, XXXI, CF.
Aparência – art. 5º CF
Destruição de documentos – art. 305 CP
Calúnia – art. 138 CP
Difamação – art. 139 CP
Injúria – art. 140 - CP

Inexistem dados precisos acerca da violência praticada contra a mulher no Brasil.
No entanto, pesquisas revelam que no Brasil, de cada 100 mulheres 25 sofrem violência física, das quais 90% acontecem no ambiente familiar. Vê-se, de logo, o alto índice de violência doméstica, a maioria praticada pelos maridos ou companheiros, padrastos, pais e irmãos.
Tais pesquisas ainda evidenciam que a maioria dos casos não é denunciada, havendo denúncia de apenas 1/3.
As mulheres têm medo de sofrer represálias, temem um escândalo com abalo de sua reputação no meio social, ou não sabem a quem recorrer. Insegurança, medo, indiferença das autoridades públicas e da sociedade, impunidade, dentre outros fatores, contribuem para que não haja a denúncia.
Julgo importante registrar que a mulher tem contribuído para manter essa situação, seja pela apatia com que recebe a violência ou vê violentadas outras mulheres, sem mobilização para qualquer tipo de reação e apoio, seja por aceitar sem questionar, padrões impostos pela mídia e pelo poder econômico, com vistas ao consumo, transformando-se, não raro, em objeto e símbolo sexual. A felicidade deixou de ser conseqüência de uma vida estável emocionalmente e realizada profissionalmente, com a satisfação das necessidades básicas e fundamentais de afeto, carinho, alimentação, habitação, instrução, cultura e lazer, de crescimento espiritual, enfim, de uma vida digna como ser humano, para estar na posse, no poder, na beleza e na juventude. A mensagem sub-reptícia que é passada pela mídia, é que para ser feliz, a mulher tem que consumir tais ou quais produtos, “malhar“ “x” horas por dia, usar roupas desta ou daquela grife, tomar café “magro”, enfim, tudo que lhe proporcionará posse, poder, beleza e juventude, comprando ilusão para mascarar uma realidade difícil, num processo de auto-anestesiamento.
Impõe-se despertar. A felicidade está na harmonia de uma convivência familiar e social de respeito, de solidariedade e de complemento.
Homens e mulheres são iguais em direitos, mas diferentes em funções. O homem não pode exercer a maternidade. A gestação e o parto são funções tipicamente femininas. A amamentação é função da mulher que tem organização física diferente da organização física do homem. Há, portanto, diferenças como estas que têm que ser observadas, respeitadas e tuteladas pela lei. Compreendendo estas diferenças e que elas se complementam, os sexos opostos devem viver em comunhão, num processo de doação recíproca, para que sejam felizes, e não em disputa pelo poder e pelo domínio.
Compreender esta realidade é questão de educação e de conscientização.
Lembremos que podemos tirar da caixa de Pandora a esperança, colocá-la em nossos corações para enfrentar o grande desafio de acabar com a violência sob todas as modalidades, em especial a violência contra a mulher.
O trabalho será árduo e ainda demandará tempo, mas de braços cruzados nada faremos. Organizemos-nos, portanto, e vamos à luta.

Mais de 2 milhões de mulheres espancadas por ano no Brasil, ou seja, uma em cada 15 segundos
A estimativa é da Fundação Perseu Abramo após pesquisa na qual 43% das mulheres admitem terem sofrido alguma forma de violência, contrastando com a resposta espontânea quando apenas 19% admitem terem sido submetidas a alguma forma de violência. A pesquisa mostrou que cerca de uma, em cada cinco mulheres brasileiras, sofreu algum tipo de violência por parte de algum homem.

“A projeção da taxa de espancamento (11%) para o universo investigado (61,5 milhões) indica que pelo menos 6,8 milhões, dentre as brasileiras vivas, já foram espancadas ao menos uma vez”. No mínimo são 2,1 milhões de mulheres espancadas por ano, ou seja, uma em cada 15 segundos”.

A violência contra as mulheres é um fenômeno antiguíssimo e é considerado o crime mais praticado no mundo. É uma constante em praticamente todas as sociedades e culturas, não respeitando fronteiras de raça/etnia e classe social.
A Convenção de Belém do Pará ou Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (1994) no seu artigo 1º define essa forma de violência como qualquer “qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública quanto na esfera privada “.
Logo a seguir em seu artigo 2º, alínea A, afirma que essa violência pode ocorrer no âmbito da família ou na unidade doméstica, ou em qualquer relação interpessoal, quer o agressor compartilhe, tenha compartilhado ou não da mesma residência com a mulher, incluindo, entre outras formas, o estupro, maus-tratos e abuso sexual.


Saiba mais ....

* SEGUNDO a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2002), um estudo realizado na África do Sul, Austrália, Canadá, Estados Unidos e Israel atesta que entre as mulheres vítimas de assassinato, cerca de 40 a 70% foram mortas por seus maridos e namorados, normalmente no contexto de um relacionamento de abusos constantes.
* NO BRASIL, o movimento de mulheres de Pernambuco denunciou o elevado número de assassinatos de mulheres no Estado: foram 369 vítimas em 2002 e 300 em 2003. No Ceará, segundo a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, foram 110 mulheres vítimas de homicídio em 2002.
* PARA a OMS “além dos custos humanos, a violência representa uma imensa carga econômica para as sociedades em termos de produtividade perdida e aumento no uso dos serviços sociais” (OMS, 2002). Consta no relatório que 13% das mulheres pesquisadas em Nagpur (Índia) deixam um trabalho remunerado por causa do abuso e faltam em média de sete dias úteis por incidente. E 11% das mulheres agredidas não conseguiam realizar tarefas domésticas por causa de um episódio de violência. Embora a violência de gênero não afete constantemente a probabilidade geral de uma mulher conseguir um emprego, parece ter influencia no salário e na sua capacidade de manter o emprego.
Fonte: http://www.marina13.com.br

* DE ACORDO com a Organização das Nações Unidas, ONU, a Violência contra a mulher na família é uma das formas mais insidiosas de violência dirigida à mulher, representando a principal causa de lesões em mulheres entre 15 a 44 anos no mundo.
* AINDA segundo a ONU, a violência doméstica compromete 14,6% do Produto Interno Bruto – PIB na América Latina e, no Brasil, a violência doméstica custa ao país 10,5% do seu PIB.

* CRESCE em Curitiba, Paraná, o número de casos de violência contra a mulher. Houve um acréscimo de 67% entre 2002 e 2007, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS). De acordo com a Delegacia da Mulher de Curitiba, de março até o início de agosto de 2008, foram registrados 2.977 boletins de ocorrência — 24 ocorrências por dia, em média. As ocorrências mais freqüentes são lesões corporais e ameaça contra a mulher. Fonte: http://www.bemparana.com.br/index.php?n=60592&t=.
* DADOS do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento revelam:
- Um em cada cinco dias de falta ao trabalho no mundo é causado pela violência sofrida pelas mulheres dentro de suas casas.
- A cada cinco anos, a mulher perde um ano de vida saudável se ela sofre violência doméstica.
- O estupro e a violência doméstica são causas importantes de incapacidade e morte de mulheres em idade produtiva.
- Na América Latina e Caribe, a violência doméstica atinge entre 25% a 50% das mulheres
- Uma mulher que sofre violência doméstica geralmente ganha menos do que aquela que não vive em situação de violência.

* PESQUISA realizada pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH aponta que 66,3% dos acusados em homicídios contra mulheres são seus parceiros.

* MULHERES NEGRAS entre 20 e 40 anos e que não ultrapassaram o ensino fundamental, são as que mais recorrem à Central de Atendimento à Mulher, em São Paulo, criada para dar informações e orientações às vítimas de violência. A maioria (61,5%) diz sofrer agressões diárias, cometidas principalmente pelos companheiros. Os números integram estudo da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.

violência doméstica
AMOR QUE FERE


Metade das mulheres do mundo é vítima de algum tipo de violência. O mais assustador é que elas são agredidas dentro de casa, pelos próprios companheiros. O drama não faz distinção entre casebres e palacetes – a única diferença é que, quanto mais alto o nível socioeconômico da vítima, mais os gritos são abafados. Ana é uma corajosa exceção: casada com um homem rico e influente, rompeu o silêncio e tenta sair do inferno ao lado do parceiro violento.

Por Cristiane Ballerini

A cada 12 segundos...
Estas cinco cenas fazem parte da campanha, criada pela Young & Rubicam, que invadiu as ruas de Nova York no ano passado: "Violência doméstica. Isso tem nome. Um crime". Um dos slogans, estampado em painéis no metrô e nos ônibus, dá a dimensão do drama: a cada 12 segundos uma americana apanha do marido ou namorado.
Leia a reportagem e responda à enquete: "Se você soubesse de um caso de violência doméstica, o que faria?"

As imagens acima chocaram os moradores de Nova York. Expostas em grandes painéis nas estações de metrô, elas levaram para o espaço público as marcas de um drama que costuma ficar confinado entre quatro paredes: o das mulheres espancadas pelos maridos, namorados ou companheiros. Em resposta à campanha realizada pela prefeitura, as denúncias de violência doméstica aumentaram 14% e fizeram soar o alarme: a cada 12 segundos uma americana é agredida pelo homem que escolheu para amar. Um relatório do Unicef, divulgado em junho, diz que metade das mulheres do mundo sofre violência dentro de casa. "As estatísticas são sombrias", alerta o estudo. "A violência doméstica existe em todas as culturas, classes sociais e níveis de educação." Os números impressionam: no Japão, 59% das mulheres dizem ter sofrido algum tipo de violência por parte dos parceiros; no México, elas somam 30%; e nos Estados Unidos, 28%.

Para tentar dimensionar o problema no Brasil, a socióloga Heleieth Saffiotti, da PUC, de São Paulo, coordena uma pesquisa em 22 capitais, que vai analisar 170 mil boletins de ocorrência de todas as Delegacias de Defesa da Mulher, ao longo de cinco anos. Os resultados preliminares do estudo, financiado por organismos internacionais, mostram que as lesões corporais são a principal queixa. Em metade dos casos, agressor e vítima convivem pelo menos há 10 anos. De cada 100 casais que se apresentam diante de um delegado, 60 permanecem juntos depois da agressão. Apesar de as denúncias terem aumentado desde a criação das delegacias especializadas, grande número de mulheres ainda prefere esconder um olho roxo a denunciar o agressor – e o silêncio é ainda mais forte nas classes mais privilegiadas. "Nas delegacias, mais de 90% das denúncias vêm de vítimas pobres. Mulheres de maior poder aquisitivo raramente denunciam o parceiro violento", diz Maria Inês Valente, coordenadora-geral das Delegacias da Mulher do Estado de São Paulo. Segundo ela, mesmo independentes, mulheres das classes A e B livram os maridos para preservar o status social.

"É agindo assim que a mulher se torna cúmplice da dominação masculina, favorecendo a violência psicológica e física", avalia a psicóloga Ruth Gheler, da USP, que pesquisa violência doméstica entre mulheres com formação superior. Em seu livro de memórias, a americana Betty Friedan, ícone do movimento de liberação feminina, revela ter sucumbido por seis anos a uma rotina de marcas pelo corpo. No auge do sucesso viu a explosão de ciúme do marido Carl. "Não sei como, mas ele começou a me bater. Aceitei a agressão porque não tive coragem de romper o casamento. Gostava de estar casada e também não queria prejudicar a imagem do movimento com uma separação", justifica-se. Betty só pediu o divórcio em 1969.

Ana*, uma bem-sucedida secretária executiva de São Paulo, continua casada. Tem 32 anos e aparenta menos. Magra, rosto delicado, ela ganha expressão quase infantil sempre que sorri, franzindo os belos olhos negros. É difícil imaginar que essa mulher bonita tenha uma história de dor e de coragem para contar. Nascida em uma família de classe média alta, ela foi vítima de violência doméstica ainda criança. Desde cedo, acostumou-se a presenciar as brigas dos pais – uma roda-viva de gritos, choro e objetos quebrados. Aos 18 anos, fugiu de casa para escapar das ameaças e surras que vinham da mãe. Manter-se sozinha não foi fácil. Trabalhava, estudava e pagava o aluguel de um quarto. Era uma rotina solitária.Três anos depois, encontrou Alberto*. Mais velho e viúvo, ele conquistou o amor de Ana aos poucos, devolvendo a ela o sonho de construir uma família. Já casados, veio o pesadelo. Ana descobriu que o homem maduro e protetor que mudara sua vida também sabia bater.

"Alberto era de uma conhecida família de políticos da cidade e já havíamos nos visto algumas vezes. Numa delas, fui entrevistá-lo para um trabalho da escola quando ele assumiu um cargo público. Eu cursava o ginásio. Anos depois, ele ficou viúvo. Era 14 anos mais velho, tinha 1,90 m, olhos verdes e um sorriso encantador. Quando começou a me dar bola, pensei: 'Devo estar sonhando... o que é que esse cara quer comigo?'. Muito mais experiente, ele sabia como me encantar. Trazia sempre uma flor, um chocolate, algo para agradar. Eu tinha dificuldade em me relacionar. Ainda trazia amargura das brigas com minha mãe. No dia em que saí de casa, ela me bateu, chegou a pisar no meu pescoço. Por toda essa violência, me tornei uma pessoa arredia e com baixa auto-estima. Achava que não merecia ser amada. Mas, diante do imenso carinho do Alberto, me apaixonei.

Depois de oito meses de namoro, nos casamos. Ele tinha três filhos: Fábio*, de 11 anos, Henrique*, de 6, e Ana Carolina*, 1 ano. Se para algumas mulheres isso poderia ser desencorajador, para mim era um atrativo. Adorei a idéia de ter uma família a minha espera. Com a morte da mulher, Alberto tinha montado uma infra-estrutura doméstica que funcionava bem. Assumi a administração de tudo, mas continuei trabalhando. Estava bem profissionalmente. Era secretária executiva em uma grande empresa, fazia viagens internacionais para acompanhar os diretores e cursava Letras.

Mas essa situação não agradava Alberto. Ele dizia que nenhuma das mulheres dos irmãos trabalhava... Meu sogro chegou a sugerir ao filho que me engravidasse, 'assim ela pára em casa'. Como meu marido era gaúcho, descendente de italianos, eu acreditava que esses pensamentos conservadores faziam parte da sua cultura, mas poderiam ser contornados. Alberto, então, passou a agir sutilmente para satisfazer seu sentimento de posse. Ia me levar e buscar todos os dias no trabalho e na faculdade. O que antes era uma gentileza passou a fazer parte de um programa de controle. Quando alguém me ligava em casa, ele sempre dava um jeito – brigava com as crianças, me chamava, gritava –, tudo para que eu desligasse logo. Táticas para que eu fosse abrindo mão da minha vida. Durante a semana, à noite, ele sempre queria ir ao cinema, teatro, jantar fora e eu tinha que acordar cedo no dia seguinte. Seis meses depois, tranquei a matrícula na faculdade. Pensei que assim ele ficaria satisfeito. Não adiantou. Veio o Plano Collor. E, se aproveitando do meu descontentamento com o salário congelado, Alberto começou uma campanha: 'Querida, temos uma boa situação. Aproveite a vida, durma mais e, com o tempo, se quiser voltar a trabalhar, montamos um negócio para você', dizia. Acabei aceitando. Foi quando o inferno baixou em nossas vidas.

Logo no início do casamento, fiquei surpresa com a agressividade do Alberto com os filhos. Era só eles aprontarem aquelas coisas de criança para que o pai os ameaçasse aos berros: 'Vou te quebrar no meio!'. Às vezes, Alberto pegava a primeira coisa que via pela frente e jogava nas crianças. Era vassoura, panela, tudo voando pelos ares. Aquilo não combinava com o homem que conheci antes de casar. Ele se justificava: 'Na minha família é assim mesmo'. Era um pesadelo que voltava. Ainda podia escutar os gritos de minha mãe.

O tempo passou e, sem perceber, fui ficando cada vez mais dependente do Alberto. Ligava para ele do cabeleireiro para perguntar sua opinião sobre o corte. Comprava roupas e fazia o mesmo. Tudo piorou quando os negócios dele faliram. Ele era um empresário de sucesso na construção civil, acabou perdendo tudo por empreendimentos mal dimensionados e investimentos arriscados na bolsa. Ficamos só com a casa e dois carros. Não tinha mais dinheiro para pagar empregada e estava difícil até fazer supermercado. Resolvi procurar emprego.

Quando comecei a trabalhar, ele explodiu. Nessa altura, eu tinha assumido as crianças como se fossem minhas. Ana Carolina estava com 3 anos e éramos muito ligadas. Uma noite, a menina teve febre e não parava de chorar. Alberto se trancou no quarto com ela e não deixou que eu entrasse. 'Ela está doente por sua causa. Você não quer trabalhar? Então deixe que eu cuido das crianças', gritava. Desesperada, batia na porta e ouvia Ana Carolina me chamando. Isso durou três dias, até que eu ameacei denunciá-lo para a polícia caso ele não chamasse um médico. Então, ele desapareceu com a menina: a vingança foi levar meu bebê para a casa da minha sogra. A partir daí, a situação só piorou. Olhava para ele e tinha medo do que via. Ele chegou a me chamar de vagabunda porque não ficava em casa. Como não deixei de trabalhar e resolvi também voltar a estudar, passou a me agredir usando as crianças. Para me machucar, batia no Fábio, na época com 14 anos. Um dia, resolvi interceder pelo menino. Foi pior. Alberto continuou a bater e dizia que o menino estava apanhando por minha causa. Fiquei louca e percebi que, lentamente, ele havia destruído o amor que sentia por ele. Decidi sair de casa. 

 
Artigo: “Violência contra a mulher”
O artigo da semana escolhido para esta quarta-feira bate numa tecla que as meninas deste blog vivem tocando em alto e bom som: a militância para acabar com a covardia que é a violência contra as mulheres. O texto é da jornalista Marli Gonçalves e reflete sobre os casos mais recentes de violência aqui no Brasil e no resto do mundo (onde ainda se matam mulheres apedrejadas, como há dois mil anos atrás!!). O texto mostra ainda uma história de superação na vida da própria autora, que já viu e sentiu a violência na pele, mas deu a volta por cima. Vale muito a pena ler. No final, tem os contatos da Marli e os links para acessar suas páginas pessoais.
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**Violência contra a mulher: eu me manifesto. E você? Vai ficar olhando?
*Marli Gonçalves
Mulheres apedrejadas, esquartejadas, violentadas, exploradas, baleadas, surradas, torturadas, mutiladas, coagidas, reguladas, censuradas, perseguidas, abandonadas, humilhadas. Até quando a barbaridade inaceitável vai vigorar?
Eu me manifesto, sim, contra tudo que considero inaceitável. E não é de hoje. Desde pequena meto-me em encrencas por causa disso. Uma vez, tinha acho que uns 12 anos, e brincava na portaria do prédio quando ouvi um homem brigando com uma mulher do outro lado da calçada, ameaçando-a de morte, dando-lhe uns sopapos. Não tive dúvidas. Atravessei, entrei pequenina no meio deles, gritando forte por socorro, o que o assustou e fez com que ele parasse as agressões. Para minha surpresa, ao olhar para os lados, vi que havia muitos adultos assistindo à cena, impassíveis.
Nunca me esqueci disso. Inclusive porque, quando voltei para casa, tomei uma bronca daquelas. Atraída pelos meus gritos, minha mãe tinha ido à janela, e assistiu. “E se ele estivesse armado e te matasse?” – ouvi. Creio que respondi que nunca ficaria quieta vendo aquela cena, onde quer que fosse, e que jamais seria resignada. Dentro de minha própria casa já havia assistido a cenas que teriam ido para esse lado, não tivesse sido minha mãe uma guerreira baixinha e desaforada, ela própria vítima de um pai tão violento que não o aceitava nem em sua carteira de identidade, nem em sobrenome. Minha avó materna teria sido morta por um “acidente”, em que um motorista de ônibus, que por ele teria sido pago, acelerou quando ela descia. Caiu, bateu com a cabeça na sarjeta, morrendo horas depois, de hemorragia, na pequena cidade do interior de Minas.
Sakineh Mohammad Ashtiani, condenada a morte por adultério no Irã
Anos depois, senti em minha própria pele o desespero solitário da agressão, da humilhação, do medo. Em plena juventude e viço, em uma ligação amorosa complicada, de paixão e amor intenso que vi virar violência, agressão, loucura e insegurança, só saí viva porque mal ou bem sou de circo, e protegida pelos meus santos e anjos, daqui e do céu… Tentei não envolver ninguém, resolver, e quase virei primeira página policial. Tive a minha vida quase ceifada, ora por ameaça de facadas; ora por canos e barras de ferro, ora pela perda de todas as referências, ora pela coação verbal. Os poucos e únicos amigos que ainda tentaram ajudar também entraram no rol da violência. E os (ex) amigos que viraram as costas, ou faziam-se de cegos, desses também me lembro bem; inclusive de alguns que conseguiam piorar a situação e pareciam gostar disso, insuflando. Ou se calando. Ou me afastando. Deve ser bonito ver o circo pegar fogo.
Desespero solitário, sim. Não há a quem recorrer. Polícia? Apoiam os homens. Delegacia da Mulher? Na época não existia, mas parece que sua existência só atenuou a dimensão do problema, que pode acontecer em qualquer lar, lugar, classe social. Lei? Veja aí a Lei Maria da Penha. Pensava já naquele tempo, meu Deus, e se eu ainda tivesse filhos para proteger, além de mim? Não poderia ter me livrado – concluo ainda hoje, pasma em ver como a situação anda, em pleno Século XXI. Hoje, acredito que curei minhas feridas, que não foram poucas, especialmente as emocionais.
O que choca no caso Eliza Samudio, tanto quanto a violência em si, é o fato de muitas pessoas julgarem o comportamento da vítima, como se isso justificasse a violência que ela sofreu
Há semanas venho tentando defender, aqui do meu cantinho, a libertação da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, mais uma das mulheres iranianas cobertas da cabeça aos pés pelo xador, a vestimenta preta que é uma das versões mais radicais do véu muçulmano. Mas esse, a roupa, não é o maior problema dela e de outras iranianas. Viúva, dois filhos, em 2005 Sakineh foi presa pelo regime fundamentalista do Irã. Em 2007, julgada. A pena inicial foram 99 chibatadas. O crime, adultério! Sua pena final, a morte por apedrejamento.
Uma história que lembra a fascinante personagem bíblica de Maria Madalena, a moça que aguardava a morte por apedrejamento até ser salva por Jesus Cristo. Cristo provocou com uma frase que ficou célebre, e revelou-se futurista: “Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”. Esses iranianos estão querendo matar Sakineh e outras a pedradas, e com pedras pequenas, para que sofram mais; talvez porque sejam, acreditam, muito puros? A sharia, lei islâmica, devia prever cortar dedos, língua, furar os olhos desses brucutus modernos, hitlers escondidos sob mantos religiosos, protegidos por petróleo e riquezas?
Não bastasse a novela de Eliza Samudio que, morta ou não, faltou ser chutada igual bola, e de tantas jovens, inclusive adolescentes, mortas pelos namoradinhos, a advogada que morreu no fundo da represa. Todo dia tem violência. No noticiário ou na parede do lado da sua, no andar de baixo, no de cima, na casa da frente.
Cartaz da campanha Basta!, organizada por entidades civis e femininas
Nem bem a semana terminou e outro caso internacional estava na capa da revista Time, com o propósito de pedir a permanência das tropas de ocupação no Afeganistão. Na foto, na capa, a imagem chocante da afegã Aisha, 18 anos, que teve o nariz e as orelhas decepados pelo Talibã. Foi a punição à sua tentativa de fugir de casa, de uma família que a maltratava. Agora, Aisha está guardada em lugar sigiloso, com escolta armada, paga pela ONG Mulheres pelas Mulheres Afegãs. Deve ser submetida a uma cirurgia para a reconstrução do rosto. No Irã, ou melhor, globalmente, porque lá nada se cria, se estabeleceu a campanha “Um Milhão de Assinaturas exigindo mudanças de leis discriminatórias”, com protestos e abaixo-assinados, de grupos internacionais de mulheres e ativistas, organizações de direitos humanos, de universidades e centros acadêmicos e iniciativas de justiça social, que manifestam o apoio às mulheres iranianas para reformar as leis e conseguir o mesmo estatuto dentro do Irã legal do sistema.
O que há? O que está havendo? Mulher é menos importante? A realidade: em cerca de 50 pesquisas do mundo inteiro, de 10% a 50% das mulheres relatam ter sido espancadas ou maltratadas fisicamente de alguma forma por seus parceiros íntimos, em algum momento de suas vidas; 60% das mulheres agredidas no ano anterior à pesquisa o foram mais de uma vez; 20% delas sofreram atos muito fortes de violência mais do que seis vezes. No Brasil, a violência doméstica é a principal causa de lesões em mulheres entre 15 e 44 anos; 20% das mulheres do mundo foram vítimas de abuso sexual na infância; 69% das mulheres já foram agredidas ou violadas. No Nordeste, 20% das mulheres agredidas temem a morte caso rompam a relação; no geral, 1/3 das mulheres agredidas continuam a viver com os seus algozes. E continuam sendo agredidas. É pau, é pedra, é o fim do caminho.
Cartaz de campanha contra a violência
Estudos identificam, ainda, uma lista de “provocadores” de violência: não obedecer ao marido, “responder” ao marido, não ter a comida pronta na hora certa, não cuidar dos filhos ou da casa, questionar o marido sobre dinheiro ou possíveis namoradas, ir a qualquer lugar sem sua permissão, recusar-se a ter relações sexuais ou suspeitar da fidelidade, entre eles.
Até quando ficaremos assistindo a esse filme? Chega. Foi como li a conclamação da amiga e uma das mais respeitáveis profissionais de comunicação do país, Lalá Aranha, em seu Facebook: “Não posso entender como em pleno século XXI as mulheres brasileiras são tão molestadas. Precisamos fazer algo neste sentido. Quem me acompanha?”
Adivinhem quem foi a primeira a responder? Eis, assim, aqui, também, minha primeira contribuição.

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